Aug
14
2014
0

Indo além

Independente de qualquer disputa ideológica a única realidade inevitável que enfrentamos para o futuro econômico é a descrita neste vídeo. E precisamos pensar em como alcançar uma economia sustentável onde as pessoas simplesmente não precisem trabalhar.
A mentalidade tacanha que regue a atual conjuntura e insiste em valorizar a presença de pessoas em postos de trabalho já obsoletos há décadas só atrasa o inevitável e provoca mais sofrimento.
Um sistema econômico que não dependa de trabalho humano deveria ser a principal meta almejada, mas tanto direita como esquerda dificilmente conseguem pensar em uma economia funcional onde ninguém precise trabalhar. Não que seja simples.
Particularmente acredito que tal sociedade seria a única experiência comunista possível. Não pelo emprego total e luta de classes como os comunistas vêm pregando desde sempre, mas justamente pela ausência de trabalho e classes, pois robôs produzirão tudo que for necessário e a nós restará apenas desfrutar de uma vida de prazeres.

Vida idílica

 

E por prazeres não apenas deitar na relva e ver a vida passar, mas também buscar mais conhecimento e empreender em atividades hoje consideradas trabalho pelo real prazer em praticá-las.
É difícil pensar em como as coisas prosseguiriam a partir deste ponto. Talvez o Isaac Asimov tenha a resposta na sua série de livros que começa com o Caves of Steel. Não podemos nos tornar spacers de todo nem darmos um passo atrás como os terráqueos.

The Caves of Steel

É preciso encontrar um meio termo que nos permita desfrutar dos constantes avanços mas não mate nossa ambição por ir além e desvendar novos mistérios e conhecimentos. É isso que nos faz humanos.
Porém, indo ainda além nesta projeção, talvez nosso destino seja no fim das contas deixar de ser humanos assim como há milênios deixamos de ser animais irracionais.

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Oct
19
2009
0

Breganejo Blues

Gostei muito do livro “Breganejo Blues – novelatrezoitão” de Bruno Azevêdo.

Resenhei pro Ambrosia. Leiam aqui.

Ao lado em laranja, tem o link para outros artigos meus no Ambrosia.

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Oct
08
2009
2

O Apanhador no Campo de Centeio

Neste livro, acompanhamos o personagem Holden Caulfield por alguns dias de sua vida em que ele vaga descontente pelo mundo, revirando sua mente e buscando por algo que não sabe o que é. Até certo ponto, o enredo tem sintonia com o espírito beatnik, contemporâneo ao livro.

Não é meu tipo de leitura. Talvez fosse mais interessante se o tivesse lido quando novo, lá pros meus 13, 14 anos. Ainda assim é possível que achasse Caulfield um bobão.

Em certo ponto da narrativa, cheguei a pensar que Caulfield pudesse ser visto como um futuro Sal Paradise que era um desocupado/aventureiro por vocação. Mas logo percebi que não. Trata-se de um rapaz mimado que não sabe o que quer da vida, pelo simples fato de nunca se dar ao trabalho de pensar no assunto. Ele se deixa dominar pelos sentimentos imediatos , ou as últimas idéias que cruzaram sua mente. Portanto suas opiniões sobre tudo e todos variam do ódio ao amor em questão de segundos, sem grandes razões, tendendo sempre à insatisfação já que raramente as coisas acontecem exatamente como ele imagina.

A história se arrasta com o personagem, sem muito objetivo, até o capítulo 24, de onde podemos extrair alguma lição, com o personagem do Prof. Antolini. Talvez o único momento no livro em que fica bem evidente a imaturidade de Caulfield e talvez a falta que lhe faz uma figura adulta que dê bons conselhos.

O texto é bem informal, sendo fiel ao linguajar de um jovem da época, e aborda alguns temas que certamente não eram muito discutidos abertamente, por isso é possível imaginar que foi um tanto pioneiro. Mas não compreendo o furor em torno do livro e a adoração em torno dele, principalmente nos EEUU onde é tão usado nas escolas secundárias quanto Machado de Assis aqui.

Muito se deve certamente ao autor J. D. Salinger, que teve uma vida que renderia um livro bem mais interessante que seu best seller. Isto, antes mesmo de tornar-se escritor profissional, tendo escrito para o NY Times, vários contos e três romances, incluindo “The Catcher in the Rye”. Depois disto, desfrutando de enorme sucesso, decidiu sem muita explicação isolar-se da vida pública e nunca mais escreveu nada que se tenha notícia. Também proibiu adaptações de sua obra, ou biografias dele. Mas Hollywood sempre dá um jeitinho. Recomendo o filme Meeting Forrester, com Sean Conery interpretando o autor Forrester que coincidentemente escreveu  apenas um livro que fez enorme sucesso, após o qual se isolou do mundo.

Quando uma obra possui interpretações tão mirabolantes eu me sinto impelido a apontar o rei nu.

Eu não simpatizei com Holden Caulfield e certamente seria um dos que ele colocaria na sua gangorra de amor e ódio. Mas também não creio que Salinger quis retratar um simpático desorientado, disso a literatura já estava cheia naquela época. Acho que Salinger quis apenas retratar um adolescente reclamão, com o qual alguns podem se identificar e mostrar justamente o quão confuso e irritante pode ser uma pessoa assim, mesmo escutando a sua versão dos fatos.

Outra polêmica em torno do livro são algumas teorias conspiratórias que tentam relacionar pessoas que surtaram e sairam matando inocentes nas ruas, escolas ou escritórios, com leitores deste livro, afirmando que todos estes atiradores maníacos haviam lido o livro. Por isso meu comentário na postagem anterior. Mas é uma correlação absurda, apesar de ser um livro que numa mente psicótica possa nutrir um ódio ao mundo. Mas aí temos tantas outras coisas que surtem o mesmo efeito…

Finalmente, a edição que li não contribuiu muito para o prazer da leitura. Uma péssima tradução da Editora do Autor, traduzindo ao pé da letra algumas expressões coloquiais e outras barbaridades.

Agora preciso ler uma história onde algo acontece.

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Sep
25
2009
2

The Graveyard Book

Mais um livro infantil do Neil Gaiman. Bem escrito, como sempre, e melhor que os anteriores.

Conta a história de um garoto, que ainda bebê tem sua família assassinada, e acaba indo parar num cemitério onde é adotado pelos fantasmas que habitam o local. É uma versão soturna do “Livro da Selva” do Kipling, algo que o próprio Gaiman não esconde. Mas, difere o desenrolar da trama.

Apesar de ser uma leitura divertida, é ao mesmo tempo frustrante por ser previsível para um leitor adulto. A cada novo livro dele fica o sentimento de que de fato Sandman foi seu grande trabalho, num nível ao qual ele não pretende chegar mais.

Apesar da Rosele discordar.

Também, o cara já não precisa provar mais nada e deve estar mais interessado em curtir sua maravilhosa biblioteca. Talvez, o dia em que eu tenha um “cantinho” assim, eu nem me interesse em fazer mais nada de sério.

Prestem atenção neste detalhe.

É ele é um sujeito batuta, não joga fora os milhares de livros que os fãs lhe dão de presente. Também foi extremamente solícito e não negou autógrafos quando veio à bienal. Diferente de outros autores que limitam o número de contemplados.

******************

Chegou, finalmente, nesta segunda o Necronauta#5 que ganhei na promoção do MDM. :)

Autografado com caveirinha e tudo pelo Danilo. Esse só tem impresso e a tiragem já está esgotada, mas podem ler o #7 aqui.

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Sob o risco de sair matando gente na rua, comecei a ler o tão falado “Apanhador no Campo de Centeio”.

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Aug
18
2009
3

Isaac Asimov

Acabei de ler o “Robots and Empire” do Isaac Asimov.

Este livro é bem interessante pois é o que de fato une as duas principais linhas narrativas do autor, as novelas robóticas e as galáticas, e mostra como uma originou a outra. Trata-se, na verdade, da conclusão das aventuras de Elijah Baley e  R. Daneel Olivaw ainda que a história se passe bem após a morte do primeiro. Não vou contar mais nada pra não estragar a graça, mas recomendo que leiam todos os livros desta série: “Caves of Steel”, “The Naked Sun”, “Robots of Dawn” e é claro “Robots and Empire”.

Segundo a Wikipedia ainda existem dois contos e um romance que se passam neste mesmo momento histórico da criação de Asimov, mas não creio que sejam fundamentais, até porque o romance parece ser uma variação do “Homem Bicentenário”, outro romance dele.

Para os que nunca leram Asimov, sugiro que comecem pelos livros que considero básicos: “Eu, Robô” e “Fundação” (neste caso a primeira trilogia toda).

“Eu, Robô” nada mais é que uma coletânea de contos sobre robôs. Estão organizados cronologicamente, dentro do universo ficcional, e muitos apresentam personagens em comum, sendo os mais recorrentes os especialistas em robótica: Susan Calvin e a dupla Powel e Donovan.

O interessante dos contos é que os robôs só existem no universo de Asimov graças ao cérebros positrônico, o aparato que permite o raciocínio robótico, mas que é bastante sensível e uma vez ligado não pode ser manipulado diretamente, sob o risco de causar danos irreparáveis. Mas, todos os robôs são programados para seguir três leis básicas:

1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2ª lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.

3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.

Baseado nisso, surgiu a robopsicologia que é uma forma como os roboticistas deste universo buscam solucionar os defeitos apresentados por robôs.

Geralmente, os contos sobre robôs do Asimov, tratam de um robô que por qualquer razão entrou em parafuso, ou começou a não funcionar direito e precisa que um roboticista o coloque nos eixos. Quase sempre a causa é fruto de algum conflito envolvendo as três leis que governam o robô, o que faz dos contos excelentes quebra-cabeças de lógica, que os roboticistas precisam desvendar e solucionar, principalmente conversando com o robô defeituoso, para que ele encontre novamente sua linha de raciocínio.

Uma curiosidade (infeliz) é que quando anunciaram o lançamento do filme com o Will Smith, achei que por causa da veia cômica, ele fosse interpretar Powel ou Donovan, que se envolvem em situações meio inusitadas. Mas acabou que o filme foi a porcaria que foi, misturando um dos contos do livro, com o Caves of Steel e colocando ação desenfreada, algo que até agora não li em nada do Asimov. A lógica passou longe.

A saga da Fundação, se passa milhares de anos no futuro, quando a humanidade já conquistou toda a galáxia. Um império governa todos os planetas, ou ao menos tenta, a partir de um planeta capital chamado Trantor.

Trantor é descrito como sendo um planeta totalmente coberto por metal, sendo ele todo  uma imensa cidade, que por sua vez produz apenas burocracia e se presta única e exclusivamente a administrar o império. Lembra Brasília, mas também lembra Coruscant.

Trantor segundo George Lucas

Trantor segundo George Lucas

Mas o grande problema é que a população humana, em toda a sua vastidão, produz conhecimento de forma absurda e muito conhecimento é perdido, por exemplo, não se sabe sequer em qual planeta a humanidade se originou, se é que se originou em apenas um planeta.

Hari Seldon

Então surge o matemático Hari Seldon com sua misteriosa ciência batizada de psicohistória. Seu objetivo é “simples”, montar a Fundação, que deve preservar todo o conhecimento humano, e com isso encurtar de 30.000 para apenas 1.000 anos o declínio da humanidade numa era de barbárie.

A história se estende por séculos, em meio a tramas mirabolantes mas muito bem amarradas, vividas principalmente por discípulos de Seldon que trabalham para manter os planos do matemático, conforme planejado.

Asimov construiu duas ambientações de ficção científica para contar histórias de mistérios. Uma baseada num império galático à beira da ruína, e outra na existência de robôs entre os homens. E depois uniu as duas de forma coesa.

Diferente de muitos autores do gênero, ele não buscava justificar as tecnologias, se baseando em teorias existentes. Apenas criou coisas que julgava serem possíveis num futuro qualquer. O objetivo era apenas criar a ambientação onde o mistério se dá, e com base nos elementos apresentados a solução há de surgir, sempre através de um exercício lógico.

O mais interessante da obra de Asimov é que está cada vez mais atual. Com o surgimento de computadores cada vez mais poderosos, e o avanço visível na robótica. Contudo, não vejo nenhum dos fabricantes de super-computadores ou robôs falar a respeito do uso que será dado a estas sofisticadas máquinas. Isto porque serão usadas principalmente para fins escusos, como guerra ou espionagem industrial.

Já existem robôs criados para combate. Seu uso não é maior por serem absurdamente caros, mas logo se tornarão baratos. Então teremos máquinas combatendo, controladas por super-computadores.

Me parece familiar...

Felizmente não existe ainda o que se pode chamar de inteligência artificial. O que temos são máquinas com enorme quantidade de dados armazenados e que por causa disso são capazes de realizar tarefas pré-determinadas, até surgir algo novo. Então alguém precisa acrescentar mais dados para que a máquina possa seguir sua função. Ou seja, uma máquina ainda não é capaz de aprender por conta própria ou deduzir (gerar conhecimento) baseada em dados já conhecidos.

Então vemos isso.

É nessa hora que um programador com o mínimo de consciência deve imediatamente digitar as três leis do Asimov no cpu.

A lógica de Asimov não é muito absurda. Basta nos basearmos na máxima de Descartes: “Eu penso, logo existo.” Se criarmos máquinas capazes de dedução, estaremos criando uma espécie de vida. Novos seres, que em boa parte serão capazes de controlar parte de nossas vidas. Não vamos querer dar a estes seres a chance de controlar todo o resto. Então precisamos buscar torná-los subservientes a nós, por meio de diretrizes básicas.

Mas pelo andar da carruagem, a humanidade está mais próxima de um futuro Cameroniano que Asimoviano.

No filme Robocop um meio termo é bem exemplificado, quando a Oscorp, fabricante do Robocop, insere como uma das diretrizes dele, a regra de não poder agir contra nenhum membro da diretoria da companhia.

w

Mas isso num deu muito certo pra alguns.

Enfim, leia Asimov e sonhem com um futuro utópico, onde os roboticistas têm mais consciência e não são corrompidos por entidades inescrupulosas que não enxergam outra coisa que não seja ganhar e gastar dinheiro como se não houvesse amanhã.

Isaac Asimov

Isaac Asimov

P.S.: Para entenderem mais sobre o que pode ser a origem do cérebro positrônico leia este interessante link.

P.S. 2: Falando sobre isso com meu amigo Adolfo, ele chegou a uma conclusão bem interessante:

“…o problema das 3 leis é que pra implementá-las é necessário um cérebro inteligente o suficiente para entender frases semanticamente (sem saber português, a
frase “Um robô não fará mal a nenhum ser humano” não faz sentido).
Mais até do que isso, o cérebro tem que ter inputs e subsistemas suficientes para reconhecer o mundo ao seu redor e decidir as consequências de suas ações.”

Isto tranquiliza bastante apesar de remover o tom apocalíptico que deu graça à postagem.

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Jul
11
2009
5

Bernard Cornwell

Agora chegou a hora de falar de outro autor que até agora tem sido certeza de um bom livro daqueles que eu só largo, com pena, quando terminam.

Falarei de outros, no seu devido momento. Poderia falar de livros apenas, mas em certos casos é melhor falar logo do conjunto da obra, senão me repetiria muito ou acabaria deixando de mencionar bons livros.

Talvez já tenham escutado falar de algum destes livros de Bernard Cornwell, que já foram publicados no Brasil:

Trilogia do (Rei) Arthur

Trilogia do Graal

As histórias de Sharpe (mais de vinte livros)

As Crônicas Saxônicas (ainda incompletas, com quatro livros)

Trata-se de um autor que escreve basicamente romances históricos, em boa parte sobre a história inglesa, assunto sobre o qual ele demonstra ter bastante conhecimento.

São sempre histórias de aventura verossímeis, e descritas com detalhes suficientes para colocar o leitor no ambiente, mas não a ponto de tornar a leitura enfadonha. Os livros vêm sempre com uma nota dele no final, explicando e contextualizando sua narrativa no que de fato se tem registro de ter ou não ocorrido e, muitas vezes, assumindo ter alterado um detalhe histórico ou outro por opção, para deixar a trama mais a seu contento.

Neste ponto é que os romances históricos mostram seu valor, pois 70% de tudo que é narrado de fato ocorreu ou ocorria e ver tudo sendo narrado tal como Cornwell o faz, nos permite voltar no tempo por alguns momentos e de fato ver a história acontecendo.

Na trilogia de Arthur, ele narra uma versão verossímil da lenda do Rei Arthur, mas em seu livro Arthur não é rei, mas sim um grande general bretão que consegue unir os reinos bretãos contra os invasores saxãos. O interessante é que ele soube colocar a lenda num momento histórico onde ela faz total sentido, pois é o momento que marca o fim dos druidas, com a chegada dos saxões e do cristianismo na Inglaterra. Trata-se de um período obscuro na história, pois estes povos não possuiam registro escrito. Neste livro, Cornwell aproveita também para mostrar a herança que os romanos haviam deixado naquela região, após abandonarem tudo com o colapso do império. Principalmente na maneira de guerrear. Nunca mais consegui levar a sério uma cena de batalha medieval que mostra duas turbas enfurecidas se chocando de maneira suicida.

Pra quem já leu “Brumas de Avalon” e gostou mas lamentou a ausência de batalhas, ficará em êxtase.

Alías cenas de batalha são a especialidade deste autor.

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Derfel Cadarn, o narrador desta história, não se cansava de gritar: "Parede de Escudos!"

Passado o hiato entre a saída dos romanos e o estabelecimento do cristianismo naquelas terras, volta-se a ter algum registro, ainda que pouco, sobre o reinado de Alfredo, o primeiro rei a unir toda a Inglaterra. E é esta a história narrada nas Crônicas Saxônicas, sob a perspectiva de Uthred de Bebanburg, ou Uthred Ragnarson. Um guerreiro saxão, 400 anos após os eventos narrados sobre a lenda de Arthur, em meio à invasão dos Vikings Dinamarqueses e o esforço de Alfredo para construir seu reino.

Acessando o site do autor, enquanto escrevo esta postagem, descobri que o quinto livro está para ser lançado e mal posso esperar.

Na Trilogia do Graal somos apresentados ao exímio arqueiro inglês Thomas of Hookton lutando na guerra dos 100 anos contra os franceses.

Este personagem tem uma dinâmica um pouco distinta de Derfel e Uthred, pois não se vale tanto da força física.

Contudo, existe uma certeza sobre os heróis de Bernard Cornwell. São todos altos, fortes e muito bons no que fazem. Thomas não foge à regra e por uma razão justificada, os arqueiros que usavam os arcos longos ingleses, tinham de ser muito fortes para conseguir vergar os arcos e disparar com velocidade e precisão sua flechas. Estes arcos eram capazes de perfurar armaduras além de possuirem excelente alcance. Os ingleses devem a estes arqueiros a vitória sobre os franceses.

Acabou de sair o mais novo livro do autor “Agincourt” que também narra a história de um arqueiro inglês, como Thomas, porém na batalha já imortalizada por Shakespeare em Henrique V.

Pulando agora muitos séculos chegamos ao tenente Richard Sharpe, que é o grande carro chefe de Cornwell. Narrando as histórias de Sharpe, Cornwell conta a história do Duque de Wellington, que fez carreira no exército britânico, vencendo inúmeras batalhas, culminando com a vitória em Waterloo sobre Napoleão. São 21 livros. O autor decidiu começar sua narrativa colocando Sharpe como tenente, foi apenas recentemente que ele decidiu contar mais histórias e resolveu escrever sobre Sharpe desde o início, como um cabo do exército britânico na conquista da Índia, já sob o comando de Wellington. O livro que acabei de ler foi o segundo, cronologicamente, de Sharpe. Como comecei tardiamente, optei por ler seguindo a cronologia correta e não pela ordem de publicação.

Os livros de Sharpe inclusive foram filmados em uma série de filmes para TV inglesa, estrelados pelo Sean Bean, o Boromir do Senhor do Anéis.

Bernard e Sharpe

Bernard e Sharpe

Isto é Bernard Cornwell, muita ação, aventura, romance e uma pitada de drama, banhados em uma excelente aula de história.

Existem outros livros dele que ainda não pude ler. Tudo em seu devido tempo.

P.S.:

Era para eu ter escrito esta postagem faz algum tempo, pois tenho buscado escrever sobre bons livros que acabei de ler e já passei da metade do livro do Asimov que comecei a ler em seguida.

Portanto fiquem atentos que logo falarei de um dos mestres da Ficção Científica.

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Apr
18
2009
3

A Maldição do Cigano (Thinner)

Trata-se de um livro do Stephen King que acabei de ler e gostei.
Não sou fã do cara, mas o admiro pela capacidade de bolar tanta coisa, escrever rápido e escrever bem. Tá certo, que este foi o primeiro livro dele que li de fato. Mas assisti a vários filmes.
Os xiitas por favor não me apedrejem (aviso logo que apago comentário desaforado). Não sou muito chegado ao gênero de terror, se é para me assustar e ficar com medo de ir na cozinha à noite, que seja por algo realmente bom. E até agora, antes deste livro, os unicos textos de terror que me despertaram interesse e de fato me deixaram com medo, são do Lovecraft. Recomendo especialmente “The Case of Charles Dexter Ward“.

Tenho preconceito com o King porque cansei de assistir a histórias que te mantém atento o tempo todo e elocubrando mil e uma explicações para o que está acontecendo, e como tudo pode acabar para chegar no final e me frustrar, pois nada é explicado e tudo termina sem mais nem menos.

Imagino que isto se deva ao fato dele já estar pensando no livro seguinte, no final e acaba terminando as coisas de qualquer jeito. Tudo tem seus prós e contras.

O Thinner não é certamente dos mais assustadores. Pude constatar que o cara escreve bem, apesar da péssima tradução. Tradução esta com direito a pérolas do tipo: “Isto está fodidamente ruim.” 

A trama é sobre um advogado gordão que é amaldiçoado por um cigano sinistro e começa a emagrecer sem parar. Daí a tradução correta do título: “Mais magro”. Obviamente tiveram que mudar.

A trama começa lenta, mas quando engrena é ladeira abaixo, até chegar a um final que não decepciona. Os últimos capítulos me fizeram imaginar a toda a hora que diabos ia acontecer. Mas é muito mais uma história de suspense que terror. Até porque, quais as chances de você encontrar um cigano, ele não ir com a tua cara e te colocar uma maldição?  Felizmente para mim são poucas, do contrário estaria me cagando de medo.

Me empolguei e vou assistir ao filme que fizeram. Terei uma experiência Stephenkinguiana completa.

Recomendo.

Agora retornarei para o Bernard Cornwell em mais uma aventura de Sharpe.

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Feb
25
2009
0

NerdQuest

Acabei de reler este livro do meu amigo Pedro Vieira.

Eu tinha lido um dos últimos rascunhos antes do livro ser impresso.

A primeira vista parece mais um livro de picardias estudantis sob uma ótica nerd. Mas podemos ter uma leitura mais profunda dos dilemas pelos quais muitos de nós passamos ao ingressar na vida adulta e profissional.

Dilemas cada vez mais comuns, a medida que diplomas perdem seu valor, e empregos estáveis com salários razoáveis se tornam artigos de luxo.

Mas não vou negar que a grande diversão do livro são as referências rpgísticas e musicais.

Por se tratar de uma obra quase auto-biográfica, pude identificar ainda alguns detalhes interessantes, inclusive uma das passagens, não direi qual, foi totalmente inspirada num episódio protagonizado por mim e outros amigos, e testemunhado pelo Pedro.

Fica a dica após adquirir o livro com autógrafo, dedicatória e de quebra um agradecimento no final. 

Vejamos se agora o Vieira linka o meu blog no dele.

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Feb
21
2009
0

Tupiniquins

Introdução:

Finalmente uma história minha!
A primeira a ser postada neste blog, mas não se trata ainda de material novo de fato.
Esta história foi escrita alguns anos atrás.
Ela mistura: Aventura, fantasia, ação, ficção científica e humor.
A história tem como base o universo da Intempol, criado por Octávio Aragão e que ganhou vida não apenas nos contos do próprio, mas também pelas criações de diversos outros autores nacionais. Algo bem interessante que acompanhei de perto.
A empolgação foi tanta que rendeu inclusive algumas HQs e uma ambientação de RPG. Só faltou mesmo um filme ou um desenho animado.
Nas HQs destaco a adaptação do conto A Mortífera Maldição da Múmia, da qual participei e que se mostrou numa excelente experiência.

Esta história em particular seria mais uma HQ da Intempol. Eu e o Rodrigo Martins pensamos na idéia inicial em conjunto e eu fui desenvolver o roteiro. Me empolguei tanto que escrevi logo em prosa para roteirizar posteriormente. Mas os fatores tempo e dinheiro impediram que a HQ fosse realizada, sequer o roteiro ficou pronto. No fim a história não saiu e ficou guardada.

Em postagens futuras falarei mais sobre a Intempol e o que conheço de ficção científica nacional.

Eu classificaria este meu trabalho como um conto, a princípio, mas escrevendo este post decidi pesquisar e verificar de fato se existe alguma distinção, que não tamanho, entre: conto, romance, novela, etc… Me deparei com esta definição que me parece satisfatória e mais lógica.
Então creio se tratar de um romance o que escrevi. Ainda que pequeno.

Romance este que será postado aos poucos, semanalmente, em capítulos, episódios ou fascículos. (O último link é apenas uma associação direta, nada a ver no contexto).

Esse “esquartejamento” não deve atrapalhar a leitura, mas sim, tornará a leitura no blog menos cansativa. Imagino. E, a quem estou enganando? Obrigará meus fiéis leitores a voltarem aqui no blog toda a semana. Os infiéis esperarão alguns meses para ler tudo, de uma só tacada.

De qualquer forma espero que gostem.

Num corredor escuro, dois homens estão de pé lado a lado, um deles com uma prancheta nas mãos; verificam uma lista de nomes.

Na direção do bloco infindável de celas, passam vultos cabisbaixos, um grupo incomum e heterogêneo. Nada fora do esperado neste lugar.

– O menino…

– Tai.

– O leitão…

– Também.

– A velha senhora…

– Até ela!

– O boneco de espiga…

– Na mão do garoto.

– A menina…

– OK.

– A boneca…, garota! Onde é que tá a sua boneca?

A menina, com lágrimas nos olhos, ergue seu rosto na direção do homem e diz:

– Não sei. Sumiu.

Puta qui pariu, Macedo! Foi você quem verificou os prisioneiros quando foram capturados!

Eu bem que procurei, mas que diferença faz? É a porra duma boneca!

Mas tá aqui na lista!

Vê se ela num enfiou no bolso!

Quando o chefe descobrir nós tamu fudido.

***

?!

***

O ambiente em que a boneca agora se via, em muito contrastava com o do sítio.

Agora ela se via dentro de um recinto fechado, escuro, sujo…

Quem… q-que é isso? – Uma voz indaga de um canto onde um vulto se distingue em meio à penumbra.

Isso não! Mais respeito! Veja lá! – ela respondeu. – Quem é o senhor?

Meu Deus do céu! Estarei alucinando ou é mesmo uma boneca que me dirige a palavra?!

Sou sim senhor uma boneca! – respondeu indignada colocando as mãozinhas na cintura. – Porque? Nunca viu uma boneca falante? Agora seja mais educado, e se apresente!

O vulto rasteja de quatro para perto da boneca, onde a luz do luar, que entra pela pequena janela do recinto, permite distinguir suas feições. São de um homem de certa idade, com os olhos arregalados, ainda surpreso com a situação. Seu rosto está abatido e sua barba por fazer.

M-me chamo Policarpo.

Muito bem. E o senhor seu Pó de Caco poderia me dizer porque mora num lugar tão sujo, escuro e…

Policarpo, Policarpo Quaresma.

Que seja. Mas onde estamos?

Policarpo se belisca para ter certeza de não estar sonhando.

– Se ainda não reparou, isto é uma cela de prisão.

Ora, uma cela! Vejam só! E por que o senhor Pó de Caco está preso? – Indagou ressabiada, se afastando um pouco. – Não seria o senhor um homem perigoso?!

É Policarpo. E não se aflija; não sou adepto da violência.

E por que o senhor está preso, então?

É uma longa história. Basta dizer que fui acusado injustamente pelo traiçoeiro Floriano.

Ora. Conte-me tudo, senhor Pó de Caco.

Policarpo gira seus olhos procurando relevar a petulância da boneca.

– Eu gostaria, antes, de saber o que a senhorita está fazendo aqui.

Ela notou o tom um tanto nervoso na voz do homem à sua frente.

– Tenha calma e não me chame assim de senhorita, pois sou casada, e muito bem casada, com meu esposo, o Marquês. Mas vejamos… Por onde começar?

 

Policarpo está surpreso, que será que a boneca tem na mão?– Posso dizer que tudo começou quando a menina, minha amiga, me jogou debaixo de um monte de palha atrás do curral da vaca, no momento em que uns homens estranhos de roupas escuras surgiram de todos os lados correndo.

– Mas que bando de vândalos! – Exclama indignada a boneca. – Escutei barulho de coisa se quebrando, e o Marquês se pôs aos berros, provavelmente porque lhe pisotearam a horta e suas abóboras. Ainda por cima, fiquei toda suja! Bem que minha amiga podia ter me empurrado para dentro de um lugar mais limpo!

Espera! Foi aí que percebi, pelos ruídos, que a menina tinha sido capturada pelos malvados! Mas certamente a mucama os poria pra correr a vassouradas. Ledo engano, em pouco tempo tudo se colocou no mais completo silêncio, e só então consegui me livrar do monte de palhas sobre mim.

Corri para entrar na casa, pela entrada dos fundos. Parecia que um furacão havia surgido bem ali dentro. Estava tudo revirado, e nem sinal de viva alma. Nem o garoto, nem o boneco dele, nem a velha senhora dona do Sítio! Ninguém em canto algum.

Me lembrei então do pó de pirlimpimpim que tinha guardado. Puxei do meu saquinho com pó de pirlimpimpim, de um de meus bolsinhos do vestidinho que a menina me costurou. Mas, por mais que tentasse, não conseguia ir à parte alguma, de alguma forma meus amigos estão fora do alcance do pó.

Finalmente, me cansei de buscar por meus amigos e sentei-me aflita e pensativa tentando buscar um meio de descobrir seus paradeiros. Até que… Não sei se escutei algo, seja lá o que tenha sido, minha intuição me deu a certeza de onde deveria ir em busca de ajuda! Aspirei um pouco e FIUM surgi bem aqui!

***

Policarpo havia se quedado boquiaberto com a rapidez com que a boneca narrara algo tão absurdo. Mas era uma boneca de pano quem lhe contava, portanto assim que ela terminou, ele sacudiu a cabeça se reanimando do transe em que imergira ainda prostrado no chão de joelhos.

Está me dizendo que esse tal pó de pirlimpimpim a fez chegar aqui?!

Pois é. Sabia que isto haveria de ser útil um dia. Por mais que o garoto encrencasse comigo se me visse com esse bocado de pó de pirlimpimpim. “Arteira como é acabará aprontando uma com isto!” Ele teria dito. Mas fiz bem, com isso posso salvá-los. Basta pensar bem onde buscar ajuda.

Mas porque justo aqui? E justo eu?

O senhor está disposto a me ajudar?

Policarpo então pára e pensa por um momento, novamente se beliscando.

Até poderia ajudá-la…

Então vim ao lugar certo – responde a boneca sorridente.

Mas, como pode ver, estou preso, a menos que possa nos tirar daqui com esse seu pó mágico.

Isto seria possível, sim. Mas para onde iríamos? Estou aqui para buscar meus amigos!

Nisso tens razão… Então avaliemos o problema. Pelo que pude perceber, você não faz idéia de quem seqüestrou seus amigos.

Nenhuminha.

Digo-lhe então que em muito suspeito de homens do governo.

Como?

É uma infelicidade de nossos tempos. Eu também uma vez já confiei na integridade da República e de nossos líderes, mas, como pode ver, hoje estou preso. O mais incrível é que meu único crime foi ter almejado o melhor para a nação!

É mesmo uma pena, mas o que isto tem a ver?

Ora, não seja ingênua! Eu também o era até pouco tempo, mas pude observar que em iguais apuros muitos outros se encontram. Talvez vocês tenham feito algo contrário aos planos de Floriano.

Não sei se este seria o caso.

Tive uma idéia!! – Exclamou Policarpo erguendo um dos punhos cerrado em gesto vitorioso, e um ligeiro sorriso crescendo no canto de seus lábios. – O que a senhora marquesa necessita é de um valente herói de índole imaculada! E não posso pensar em ninguém melhor que um representante do povo mais nobre que nessa terra habita. Um valoroso guerreiro índio!

E desde quando um índio seria capaz de nos ajudar a resgatar meus amigos? – Ela vestiu uma expressão de pura incredulidade.

Até momentos atrás eu não pensava que bonecas pudessem falar.

No mesmo momento, a boneca de incrédula passou a ultrajada e abriu a matraca aos berros.

– Mas como ousa?! Pois saiba o senhor… – Nesse momento Policarpo assustado com todo o barulho agarrou a boneca e com uma das mãos tampou-lhe a boca.

Nesse momento, ambos escutam ruídos de passos do lado de fora, aproximando-se da cela.

Um guarda encosta o rosto no pequeno visor da porta da cela.

Que se passa aí?

Na-nada seu guarda. Apenas tive um sobressalto durante o sono – responde Policarpo.

Pois fique quieto! – O guarda disse se retirando e seguindo sua ronda.

Por favor, fale baixo ou seremos flagrados aqui! Posso soltá-la? – Sussurrou Policarpo.

A boneca fez que sim com a cabeça e os olhos arregalados de susto.

– Temos de agir rápido antes que amanheça e venham me verificar. – E, dizendo isso, Policarpo largou a boneca.

– Nunca mais ouse me agarrar assim! – Ameaçou a boneca ressentida e tomando distância de Policarpo, mesmo assim mantendo baixo o tom de voz.

– Certo, mas vamos logo que o tempo urge. Ainda não creio de todo nesse tal pó de pirlimpimpim, mas, dadas as circunstâncias, vale a tentativa.

– E o senhor conhece algum? – Ela indaga demonstrando interesse.

– Índio? Ora, não! Mas se pudesse nos levar à presença de um verdadeiro representante dos Tupi ou Guarani, eu poderia sem dúvida travar contato e interpelar a seu favor. Modéstia à parte, já estudei bastante seus hábitos e idioma.

A boneca abriu um grande sorriso, e exclamou um tanto debochada.

– Não me diga! Vejam só! Talvez não tenha sido mesmo de todo mal vir até aqui.

– Certo! Como faremos agora?

– Primeiramente, me diga onde pretende encontrar o tal índio, para que eu possa calcular o quanto de pó precisaremos cheirar.

– Penso no interior de São Paulo, próximo ao Paraná.

Ela pegou seu saquinho de pó e calculou dois bocados idênticos nas pontas de seus dedos.

– Tome! É como cheirar rapé.

– Rapé?

– Apenas aspire seu bobo! E não se esqueça de ter em mente onde quer chegar.

– A cela de Policarpo Quaresma é por aqui, mas o que os senhores desejam com aquele velho louco? Ei! Que bate papo é esse aí? – Era a voz do guarda que voltava, agora acompanhado, para a porta da cela.

Policarpo apenas resmungou e olhou para a pitada de pó no seu dedo.

– Bolas, que seja pra melhor… – E, sendo assim, cheirou o pó que a boneca lhe dera.

Logo se percebia tratar-se de uma sala de tortura. Um pequeno recinto, iluminado por uma única lâmpada, cuja única saída era uma porta agora fechada.

– Hehehe! Pusemos o papagaio no lugar dele!!

Isso lá era verdade, só que o papagaio não partilhava do humor que os dois sujeitos, cujas feições se ocultavam nas sombras em torno da lâmpada, demonstravam.

Ele já estava amarrado de ponta cabeça naquele pau de arara há duas horas, e quase todas as suas penas lhe haviam sido arrancadas.

E então lourinho? Vai o num vai contá onde tá o herói?

Eu já disse que não faço idéia, faz tanto tempo…

Ondié que tá o herói? – Berrou o outro sujeito. – Sabemos que você foi o último a vê-lo, portanto diga logo, antes que comecemos a usar isto em você.

O indivíduo ergue então dois fios desencapados próximos ao rosto do pobre papagaio.

E garanto que sabemos escolher lugares especiais mesmo na anatomia de uma ave – completou o outro.

Eu já disse que só sei que quem vocês procuram é um sujeito alto, loiro, de olhos azuis…

Disso, já sabemos! Vamos ver, se com um certo estímulo você começa a falar como um papagaio de verdade.

***

De imediato, Policarpo sentiu sua vista turva e a cabeça tonta com um zunido nos ouvidos. FIUUM… Sentiu-se então leve como uma pluma. Logo notou que era levado pelo espaço como se carregado por um tufão.

Em questão de segundos sentiu-se caindo e, finalmente, havia terra firme aos seus pés.

A paisagem a sua volta aos poucos tomou forma quando sua visão foi retornando. Policarpo agora se via em meio a uma densa mata verdejante.

A seu lado estava a boneca de pé com as mãozinhas nos quadris e um ar inquisidor.

– E agora? O que faremos? Como vamos encontrar um índio em meio a todo esse matagal?

Policarpo mal podia conter-se de felicidade. Estava mesmo livre, fora daquela cela fétida e, até onde lhe constava, bem longe das garras de seus condenadores.

– Não acredito! Funcionou mesmo! – E começou a dar pulos de alegria.

A boneca, já impaciente, retrucou. – É claro que funcionou! Este é o pó mais mágico que as fadas já inventaram. Mas diga logo que tenho pressa. É mesmo este o local em que pretendia encontrar o tal índio?

Policarpo acalmou-se e recuperou a compostura enxugando uma gota de lágrima que lhe escorria dos olhos.

– Sim, é este o lugar de fato. Ao menos imagino que seja. Talvez estejamos próximos a alguma aldeia. Vamos andar por aí e acredito que, não tardará muito, encontraremos algo ou seremos encontrados.

Assim espero.

***

***

Francamente, estamos há horas aqui, e o senhor…, senhor Pó de Caco, nem um indiozinho me encontra! – a boneca exclamou irada.

Sem dúvida esta está se saindo uma tarefa das mais árduas. Tinha fé que seu pó tivesse nos trazido para mais próximo de onde poderíamos encontrar algum índio. Se ao menos eu tivesse minha bússola ou meu relógio, poderíamos nos localizar com mais facilidade – lamenta Policarpo sentado em uma pedra coçando seu queixo.

O mais provável é que o senhor, na verdade, não faz idéia de onde se encontrar índio algum, e por causa disso estamos perdidos! Já estou cheia; tenho que pensar onde encontrar ajuda de verdade e fazer melhor uso do que me resta do pó de pirlimpimpim.

Então me responda uma coisa. Porque não usa este seu pó mágico para chegar até seus amigos e salvá-los de uma vez?

Não consigo. Com a ajuda do pó posso visualizar qualquer lugar menos onde eles estão.

Com essas palavras, ela dá suas costas para Policarpo e se depara com um ouvinte até o momento oculto.

Policarpo se ergue com um grande sorriso no rosto e os braços estendidos. – Ora vejam! Por fim! Já não era sem tempo! Um verdadeiro silvícola de nossa terra!

O índio era sem dúvida um guerreiro. Forte, mas já um homem de meia idade, ligeiramente grisalho, com uma pequena lança em punho, seu corpo pintado e trajando poucas vestimentas. Ele tinha uma expressão de curiosidade no rosto.

Será mesmo este um representante dos guaranis? – Se perguntava Policarpo. – Bom vamos ver se me lembro… Ah! Como eram mesmo as palavras?

Mas o recém chegado se adiantou e disse:

– Me chamo Peri. Quem é o senhor?


A boneca, com um olhar embasbacado, observava o guerreiro desde seus 40cm de altura. Ao ouvir o índio falar, recuou para perto de Policarpo Quaresma.

Mas que surpresa, ele fala nossa língua! – Exclamou Policarpo.

Assim tudo ficará mais fácil, né? – Disse a boneca. – Mas, pra começo de conversa, abaixe essa lança, senhor Peri.

Não antes que se apresentem! Conheço muitas lendas de espíritos da floresta, só não imaginava que algum se parecesse com uma boneca.

Olhaquí, seu…! – Policarpo, subitamente tampou a boca da boneca.

Ora, não seja por isso. Eu me chamo Policarpo Quaresma e estou ajudando esta boneca que a pouco salvou-me a vida e… bom, ainda não tenho muita idéia do que ela possa ser, mas, em caso de se tratar de um espírito, creio que seja este de boa índole, pois ela apenas busca ajuda e também me livrou do cárcere.

A boneca, que lutava nas mãos de Policarpo, acalmou-se ao escutar tais palavras. Peri relaxou da mesma forma e baixou sua lança.

Acredito em suas palavras – disse o índio. – Já os observava há algum tempo escondido entre as folhagens. Pude escutar parte do que conversavam, mas ainda não compreendi o que vocês fazem aqui.

Policarpo soltou a boneca e pigarreando disse:

– Creio que posso lhe explicar…

Não! Deixe comigo! – E a boneca deitou-se a falar e em dois tempos contou tudo o que lhe ocorrera desde que o Sítio fora invadido. – E então? Que achou? Policarpo inclusive diz saber de um tal de Flor-de-Pano, que pode estar tramando tudo.

Peri ainda estava um pouco atônito, e confuso tentando tirar algum sentido e correlacionar os fatos narrados pela boneca.

Perdoe a pequenina. Pelo que pude observar, ela tem esse hábito de falar desenfreadamente, mas, para resumir, precisamos de um valoroso guerreiro disposto a nos ajudar nesta empreitada contra o poder opressor de Floriano.

Peri pensou por um instante e disse:

– Me desculpem, mas não faço a menor idéia do que estão falando; eu não tenho nada a ver com esses problemas do homem branco. Para dizer-lhes a verdade, já faz alguns anos que não vejo nenhum por aqui, desde o grande dilúvio. Com exceção da minha amada Ceci, com quem vivo.

Sabia! Logo vi que essa idéia de jerico de vir procurar ajuda com índios não iria dar em boa coisa – resmungou a bonequinha. – Agora desperdiçamos tempo e pó de pirlimpimpim à toa.

É uma pena, senhor Peri – disse Policarpo bastante chateado ao ver que mais uma de suas crenças se confirmava um fracasso. – Não saberia nos dizer se algum dos de sua tribo não teria interesse em nos ajudar?

Duvido; da minha tribo também não escuto há muito. Por aqui apenas vivemos eu, Ceci e nossos filhos – disse Peri começando a se afastar.

Vamos então – disse a boneca abrindo sua bolsinha de pó de pirlimpimpim. – Tenho uma idéia de onde poderemos encontrar homens dispostos a nos ajudar.

Ao ver o pó, algo estala de súbito na mente de Policarpo.

Espere! Peri, tive uma idéia! Este pó que ela carrega é mágico, e pode nos levar a qualquer lugar em que nossa mente possa se concentrar. Se nos ajudar poderemos trazê-lo de volta até aqui ou até os braços de sua amada Ceci. Não é verdade?

Sim, mas eu não vou mais precisar da ajuda desse selvagem. Melhor deixá-lo aqui.

Mas eu quero levá-lo! Algo me diz que nos será de muita ajuda.

E então? Disposto a nos ajudar? Precisamos muito de sua ajuda. Mesmo após tudo que li, nunca imaginara tal paraíso como este em que vives, e é bem possível que, do jeito que as coisas vão, até esta sua morada venha a ser ameaçada.

Sendo assim, acho que não seria problema. Até um dever meu… creio.

Fabuloso! – Exclamou Policarpo abraçando Peri.

Muito bem, já que estamos todos contentes, tomem aqui a quantidade do pó necessária para esta próxima viagem. Já sei bem onde temos de ir em busca de ajuda real.

Policarpo e Peri pegaram com seus dedos seus bocados de pó, enquanto Policarpo explicava a forma de usá-lo.

– Apenas aspire tudo e concentre-se em segui-la onde ela deseja ir.

Prontos? – Perguntou a boneca. – Então, aqui vamos nós!

***

FIUUM

***

Dessa vez, Policarpo já sabia o que esperar da viagem com o pó de pirlimpimpim, mas Peri assustou-se bastante com a sensação de estar voando e o zunido constante.

Não se preocupe meu amigo! Pode ser um tanto desconfortável a princípio, mas esta é minha segunda viagem e já estou me acostumando.

Para onde estamos indo?

Boa pergunta, meu caro. Creio que nossa companheira poderá nos responder.

Queremos um grupo de valentes e com esta viagem o pó que eu tinha está quase no fim. Portanto, precisamos ir onde, sem dúvida, encontraremos ambos.

E onde seria esse lugar? – Insistiu Policarpo.

Nesse instante, todos sentiram de novo os pés em terra firme. O ambiente que surgiu ao redor dos três foi o de uma estrada bem pavimentada de paralelepípedos, ladeada por belos campos e bosques de ambos os lados.

Era dia claro e, olhando a sua volta, Policarpo pôde observar que a estrada sumia no horizonte numa direção, e havia uma cidade não muito longe, na direção contrária. Era para lá que a boneca já caminhava.

– Vamos! O que estão esperando?

Foi então que Policarpo notou uma placa à beira da estrada, apontando para a cidade, com os dizeres: “Capital do Reino de Pasárgada”.

Meu Deus! É Pasárgada! Ma-mas, como?! – Exclamou Policarpo.

Ora, onde mais somos amigos do Rei? – A boneca respondeu sorrindo.

O já quase desacordado papagaio mal tem forças para notar alguém que neste momento adentrava a sala escura.

Senhor! Agente Macedo se apresentando. Acabei de retornar do Sítio e nem sinal da boneca.

Foi então que se fez notar outro indivíduo, bem corpulento por sinal, nas sombras do fundo da sala, e que, observara toda a tortura desde o começo.

– Impossível! É uma boneca que parece viva, mas é apenas uma boneca. Imbecis! Será que terei de mandar o grupo especial em uma missão tão idiota?

Lamento informar, mas não é apenas isso. Quando cheguei há pouco, também fui informado de que houve transgressões em duas LTAs (Linhas Temporais Alternativas), dentro de sua jurisdição.

O quê?!

É. Em uma, me parece que um idealista preso e condenado à morte sumiu pouco antes que dois dos nossos homens pudessem impedir, sem deixar rastros. Em outra o índio, cuja prole virá a formar o povo brasileiro, também desapareceu, e não é possível localizar qualquer um dos dois.

Mas como? Temos o tempo a nosso favor!

Os caras da técnica acham que pode estar sendo usado um outro sistema de deslocamento, totalmente desconhecido e impossível de se rastrear.

***

Vocês são amigos do Rei daqui? – Perguntou Peri.

Policarpo ainda estava impressionado com a vivacidade da boneca e calou-se, mas a boneca não perdeu a oportunidade.

– E não é o que diz o poema? Certa vez, o Visconde nos leu lá no Sítio. “Vou-me embora para Pasárgada, lá sou amigo do Rei…”.

“…terei a mulher que quiser, na cama que escolherei.” – completou Policarpo. – É, isso lá pode dar certo.

Ainda não compreendo. Desconheço tal poesia. – resmungou o índio.

Não se aflija, caro Peri – disse Policarpo coçando sua barba e com um certo ar de tranqüilidade. – Afinal de contas, estamos aqui a princípio, para auxiliar a senhora marquesa e, me parece que, dentro de sua lógica, ela sabe muito bem o que está fazendo.

Assim sendo, puseram-se a caminho e em pouco tempo alcançaram os portões da cidade.

O visual era algo de deslumbrante. A cidade ostentava uma arquitetura jamais vista por Policarpo. Mesmo a boneca, que já havia visitado lugares fantásticos, admirou-se com a beleza do lugar. Já Peri começou a sentir-se tonto apenas de se ver cercado por edificações tão grandes, tantas cores e pessoas por todos os lados. Habituado ele, com o verde predominante da mata.

Peri, não fique aí que nem um bocó olhando para cima e andando em círculos – ralhou a boneca.

Vamos, meu caro, vamos segui-la. Este não é um bom lugar para nos perdermos, não podemos perdê-la de vista – disse Policarpo puxando o índio por um dos braços e tentando acalmá-lo.

Em pouco tempo, chegaram diante de uma enorme construção, que sem dúvidas tratava-se do palácio real.

Chegamos! – Exclamou a boneca. – Vamos nos apressar e falar logo com o Rei!

Ela partiu em disparada para dentro dos jardins que cercavam o palácio, enquanto Policarpo e Peri tentavam acompanhar.

Em dois minutos chegaram às portas da sala do trono. Os três espiaram pelas portas que estavam abertas e, no outro extremo do grande salão, puderam vislumbrar o monarca de Pasárgada sentado ao trono e, a sua volta, alguns nobres e serviçais.

***

Entrem! Estávamos a sua espera – disse um dos nobres.

A boneca aceitou o convite de imediato e caminhou ligeira para perto do trono. Foi então que Policarpo lembrou-se dos farrapos que vestia, sem falar na quase nudez de Peri, pouco apropriados para a presença de um Rei. Mesmo assim, ele e Peri entraram atrás dela, ainda que um pouco tímidos.

Saudações majestade! Eu me chamo…

Sei como se chama – completou o Rei, sorrindo. – Como não saberia seu nome se todos que aqui vêm são meus amigos?

Fico lisonjeada em saber disso. Então já sabe porque viemos vê-lo?

Os conheço, porém, não sou nenhum adivinho. Sinta-se à vontade de explicar o que os traz aqui.

Ih, lá vamos nós… – resmungou Policarpo para Peri.

***

Blablablabla…

***

Uma história e tanto até agora – concluiu o Rei, após escutar a boneca sem parecer se abalar com sua excessiva eloqüência.

Obrigada.

Então vocês necessitam de um exército, e mais pó de pirlimpimpim para seguir em busca dos seus amigos.

Os três companheiros assentiram, enfileirados em expectativa.

Para começar, não tenho nem nunca tive ou terei um exército. Não existem inimigos para combater em Pasárgada, portanto, nunca vi necessidade em manter qualquer tipo de força armada, isto os senhores devem ter notado, pois não cruzaram com nenhum guarda dentro ou fora de meu palácio.

– Temo lhes informar também que, para sua infelicidade, o restante do pó que existia aqui foi há pouco levado por dois homens. Eles quiseram oferecer uma grande soma de dinheiro em troca, mas acabei deixando que levassem de graça. – Concluiu o monarca com um enorme e satisfeito sorriso estampado no rosto.

Oh! Meu Deus! Mas, e agora? O que faremos? – Exclamou a boneca.

Não se preocupem. Ambos saíram não muito antes de sua chegada, acredito que poderão alcançá-los antes que deixem a cidade.

Mas, como os encontraremos em um lugar tão grande? – Indagou Policarpo.

Isto não será problema, meus cidadãos são os mais solícitos e, se perguntarem pelas ruas, acabarão por encontrar os dois.

Muito obrigado, vossa excelência, e já vamos indo antes que seja tarde.

Mas, lembrem-se, depois que os encontrarem retornem à minha presença, pois ainda tenho algumas coisas para lhes falar.

Está bem! – Gritou a boneca já correndo para fora do grande salão.

 

Provou-se verdadeira a cortesia do povo local. Aos poucos e perguntando a todos nas ruas, conseguiram chegar a uma pequena hospedaria onde foi confirmada a presença de dois homens que haviam regressado do palácio real com grandes sacos de pó de pirliImpimpim.

Quarto número 7 – respondeu o dono da hospedaria.

Agradecendo, os três se afastaram para um canto.

Agora, temos de convencê-los a nos arranjar parte do pó, ao menos – disse Policarpo.

Se me permitem, eu tenho um plano – respondeu a boneca. – Só para caso deles não quererem ceder parte do pó.

***

Cinco minutos depois, Policarpo Quaresma procurava aparentar menos maltrapilho enquanto batia à porta do quarto número 7.

A boneca já havia se posicionado do lado de fora e, com a ajuda de um caixote, se debruçou por um canto da janela e espiou por uma fresta na cortina.

Dentro do aposento estavam três homens vestindo ternos escuros.

Está na hora. Vamos embora antes que notem nossa ausência – disse um deles que parecia acabar de ajeitar a gravata diante de um espelho.

Hahahaha! A melhor coisa que fizemos foi vir até aqui antes de todos! – Exclamou outro, enquanto se inclinava com o peso de um saco.

Vão na frente. Eu vou continuar a festejar aqui mesmo – disse o terceiro, enquanto sentava diante de uma mesinha e alinhava, sobre um espelhinho, três fileiras de pó de pirlimpimpim, usando para isso uma pequena lâmina.

Eu sabia que cê ia vacilar! – Vociferou o primeiro.

O que estava sentado pareceu não se importar e começou a cheirar as fileiras de pó, com um canudo feito do que parecia ser uma nota de dinheiro enrolado.

Nesse momento, ouviram-se as batidas na porta do quarto.

Droga! – Exclamou um dos que já estava de pé.

Vamos embora logo, antes que seja tarde – disse o outro, mostrando desespero e puxando uma caixinha escura de dentro do terno.

Cê vai tá ferrado quando o chefe descobrir!

Ambos com suas caixinhas em mãos bateram os dedos sobre elas e num piscar de olhos já não estavam mais lá.

Mais batidas à porta.

Nesse momento, a boneca percebeu que o terceiro sumira lentamente, pouco antes dos outros dois, e agora reaparecia, recostado contra o espaldar da cadeira em que estava sentado. Mas, ao contrário dos seus dois companheiros, este parecia apenas alternar a consistência de seu corpo.

Aqueles idiotas nem sabem o que tão perdendo – resmungou o homem sorridente enquanto ia e vinha lentamente como uma assombração.

A boneca já ia pulando pela janela, quando a porta abriu de supetão e por ela entraram Peri na frente, seguido de Policarpo.

Onde estão os outros dois? – Perguntou Policarpo.

Não sei. Apenas sumiram, e levaram consigo dois grandes sacos, cheios de pó, imagino. – Respondeu a boneca.

Mas deixaram um para trás! Veja! – Apontou Peri.

Este deve pertencer àquele ali – e ela apontou para o homem que ainda se encontrava esparramado sobre a cadeira, com um sorriso estampado sobre o rosto, e os olhos fechados.

Deus do céu! É um fantasma? – disse Policarpo sobressaltado.

Não seja bobo! – Respondeu a boneca. – Ele ficou assim quando cheirou uma grande quantidade de pó agora pouco.

E ele não foi pra lugar algum? – Estranhou Peri.

Pelo visto não sabe pra que serve o pó e, por outro lado, cheirou demais – Respondeu a boneca.

Imagino que esse seja um efeito colateral, então – disse Policarpo.

Como vou saber? Nunca experimentei fazer isto – disse a boneca já meio irritada.

Vejam! Aí vem ele de novo! Ele parece bem contente. – Peri achava divertida a situação.

Dessa vez, o sujeito se materializou por completo diante dos três e, aos poucos, abriu os olhos, como que acordando de uma excelente noite de sono.

***

Qual não foi o susto dele quando, diante de si, vislumbrou um velho, um índio e escutou uma vozinha vinda do chão.

Ei! Está me escutando? – Perguntava a boneca.

O Homem virou a cabeça para baixo, e quando descobriu a boneca olhou de esgueira para o espelhinho.

– Acho que ele está mau, só sabe ficar olhando com essa cara de bocó. – disse a boneca olhando para Policarpo e Peri.

Quem são?! – Exclamou o homem, tombando de costas no chão com cadeira e tudo.

Ah! Finalmente!Estes são Pó de…

Oh! Meu Deus! Ela fala mesmo! – O sujeito estava claramente histérico. – Vocês são da agência?

Agência? – Indagou Policarpo.

Você não está dizendo coisa com coisa e por que estranha tanto o fato de eu estar falando? Nunca viu?

Não são da Intempol, isto não é um robô? – Sussurrou o homem quase que para si mesmo e recuperando a calma.

O senhor poderia, por favor, nos explicar do que está falando?

Nossa essa parada é mesmo forte. Melhor maneirar, essas alucinações já tão reais demais – continuou o homem, ignorando o trio e pegando o saco de pó que estava encostado num canto.

Ele parece estar nos ignorando – disse Policarpo. – Ora, é justamente sobre isto que viemos lhe falar… – disse Policarpo ao ver o homem pegar o saco.

Algo não está me cheirando bem aqui – disse a boneca.

Nesse momento, o sujeito pegou uma caixinha idêntica às que os seus companheiros tinham.

A caixa! Peguem-na! Não deixem que ele suma! – Gritou de repente a boneca.

A ação de Peri foi quase que imediata. Fazendo de sua lança um bastão, ele acertou a caixa isolando-a para um canto, enquanto jogou-se sobre o sujeito caindo os dois no chão.

A boneca correu para apanhar a estranha caixa, enquanto o sujeito tentava se desvencilhar de Peri.

Peguei! – Gritou ela erguendo a caixa sobre a cabeça.

Nesse momento, o homem empurrou Peri e rapidamente puxou uma enorme pistola do coldre oculto debaixo do terno e disparou contra a boneca que foi jogada para trás com o impacto e caiu de costas contra a parede, largando a caixa.

Não! – Gritou Policarpo, jogando-se contra o braço armado do sujeito sentado no chão.

Policarpo tentou segurar o homem, mas este era mais forte e aos poucos ia conseguindo voltar sua arma contra Policarpo.

Foi então que um vaso quebrou-se contra a cabeça do homem, que caiu desacordado.

Policarpo olhou para cima e deparou-se com o olhar feroz de Peri.

Logo, os dois revistaram o homem lhe retirando todos os pertences e o amarraram com as mangas do próprio terno.

Em meio a isto, começaram a escutar uns resmunguinhos e se voltaram para ver a boneca baleada sentada no canto do quarto.

Peri correu para perto da boneca e a tomou gentilmente em suas mãos.

– Está bem? – Perguntou o índio.

– Quê que você acha? – Esbravejou a boneca, irada, em meio a outras exclamações do mais chulo linguajar.

– Ela deve ser mesmo um espírito que veio para nos guiar. Só assim para continuar viva semi destruída do jeito que está. – Exclamou Peri emocionado, segurando a bonequinha, prestes a venerá-la como a uma divindade.

– Espírito é a vó! Índio maluco! – Ela gesticulava com seus bracinhos e batia suas perninhas nos braços de Peri.

– O que podemos fazer para ajudá-la? – Perguntou Policarpo, já comovido.

– Vocês sabem costurar? Eu preciso ser costurada! Precisam me re-encher de macela, pois boa parte da que estava dentro de mim se espalhou! E parem de me olhar como se eu fosse morrer! Eu sou uma boneca, oras!

***

Quando despertou, ainda com resquícios de pó nas narinas, o homem se viu deitado sobre a cama do quarto, cercado pelo trio. Peri e Policarpo, cada um de um lado da cama, e a boneca, sentada ao pé da cama.

Policarpo segurava a arma do homem, analisando-a. E foi ele quem começou a falar:

– Já está acordado? Muito bem. Queremos apenas algumas informações. Que diabos é Intempol e o que você e seus amigos queriam fazer com todo esse pó de pirlimpimpim?

– Eu não posso dizer. É confidencial. E acho melhor vocês me soltarem logo, antes que…

– Antes que o quê? – Indagou a boneca.

– Ela está viva!?

– É, vivinha da Silva. – intrometeu-se a boneca – E acho melhor ir nos dizendo logo tudo que queremos saber, porque o meu amigo aqui já foi um oficial e sabe muito bem usar uma arma. E o outro você já sabe do que é capaz.

Peri permaneceu imóvel olhando sério para o homem com sua lança em riste.

– Hahaha! Bem que me disseram que neste departamento eu veria de tudo!

– Vocês acham mesmo que me assustam? Se me matarem diversos agentes surgirão para prendê-los, e se necessário darão um jeito de matar mesmo você sua escrotinha de pano.

– O que ele disse?! – perguntou a bonequinha para Policarpo, de fato confusa.

– Não interessa, porque se ele fizer mais uma indelicadeza eu puxo o gatilho! – Exclamou Policarpo, batendo com o cano da pistola na cabeça do homem. – O senhor estava desmaiado, e tomei a liberdade de buscar por alguma identificação, mas não encontrei nada além desta plaqueta tão estranha quanto o artefato que se assemelha a uma cigarreira preta, mas com números sobre ela. – Policarpo segurava na outra mão o estranho artefato e um cartão ambos feitos de um material que lhe era estranho.

– Ma…

– Shhh..! – Policarpo apertou mais ainda a pistola contra a cabeça do agente. – Nós perguntamos e você responde. Peri?

– O índio encostou a ponta de sua lança na barriga do sujeito.

– Pelo que ela nos contou, você e seus amigos estavam agindo de forma bem suspeita, o que me leva a crer que assim como nós o senhor não quer que outros apareçam.

– Diga-nos então, pra quem vocês agentes trabalham, e que diabos é Intempol.

– Ai, ai… tô tô ferrado.

– E? – Peri catucou o já aflito agente com a lança.

– Não sei muito sobre o que a Intempol faz exatamente, mas temos como nos deslocar no tempo usando estas caixas cronais.

– Você se refere a este artefato? – Perguntou Policarpo erguendo-o.

– É.

– E que espécie de magia existe nesses artefatos? – Insistiu Policarpo.

– Magia alguma! Esta é uma máquina do tempo.

– Tão pequena? – Disse Policarpo investigando melhor o aparelho.

– Mas e o Pó de pirlimpimpim? – Intrometeu-se a boneca.

– Não faço idéia do que a agência quer com o pó de pirlimpimpim, só sei que recebemos essas missões de viajar para lugares absurdos como este, e procurar pelo pó.

– Recentemente eu e meus companheiros descobrimos que esse pó dá o maior barato.

– Maior barato? – interrompeu Policarpo.

– Cheirar as carreirinhas te deixa num estado de leveza e relaxamento metal absurdo, por alguns momentos é como estar em todos os lugares e lugar nenhum.

– Mas acabamos ficando viciados. Desde então, temos desviado parte das apreensões para uso pessoal. – E então o olhar do agente ganhou certa vivacidade. – Ei! Se vocês quiserem, nós podemos entrar num acordo. Se é pó que vocês querem, eu posso conseguir muito mais!

A boneca e Peri olhavam intrigados e Policarpo se debruçou sobre o sujeito.

– E então? Quê que cês acham? – Insistiu o agente.

– Quer dizer que faz uso do pó como alguns usam ópio? Foi isso que quis dizer?

O homem olhou estranho para Policarpo, e respondeu:

– É… Mas e quanto ao acordo? Cês num são da corregedoria não, né? – No seu pouco tempo de serviço, o agente já escutara algumas histórias sobre o pessoal da corregedoria.

– Corregedoria? Não, não somos. – respondeu Policarpo intrigado com tantos termos. – Vejamos…

– Vamos direto ao assunto então – prosseguiu a boneca. – Eu estou em busca de uns amigos meus que foram capturados, e estes senhores estão me ajudando. Talvez você soubesse de algo a respeito. Não teria essa Intempol algo a ver com isto, teria?

– Como saber? O D.R.F…

– D.R.F.? – indagou Policarpo.

– O meu Departamento, o de Realidades Fantásticas.

– Nome estranho. Mas, prossiga.

– Então,… De vez em quando, o Departamento faz alguns prisioneiros. Pelos mais variados motivos. É difícil saber.

– Acho que é isso. Creio que, já podemos ir – concluiu.

– Ah sim! Já ia esquecendo de que não nos havia dito seu nome – disse a boneca.

– Augusto, Agente Augusto.

O trio começou a se movimentar para sair.

– Ei! Esperem! – Gritou o homem – Cês vão me deixar aqui, amarrado? Quem são vocês, afinal?

– Nós vamos deixá-lo amarrado, aí, mas não se preocupe, pois avisamos ao dono da estalagem e ele vai cuidar bem de você, até que os seus amigos voltem pra te buscar – respondeu Peri.

– Ah sim! Também estou levando este seu artefato e esta arma só por via das dúvidas – completou Policarpo. – Eu gostaria de poder ficar mais para que o senhor me ensinasse como mexer direito em ambos, mas pelo visto a arma não deve ser mesmo muito diferente de um revólver, pela cara que fez quando a tinha em sua cabeça.

– Mas e o nosso acordo?

– Lamento.

– Porra! – Gritou o agente, enquanto os três se retiravam do quarto.

– Que boca mais suja! A gente devia ter lavado ela antes de sair! – Exclamou a boneca que ia no bolso de Policarpo.

***

Sem demora, retornaram ao palácio real, tal como o Rei pedira.

Peri carregou facilmente o saco ainda cheio de pó.

– Eu fiquei assustada. Por um instante achei que você fosse matar o homem. – Disse a boneca para Policarpo.

– Ele tem sorte de eu não ser um sujeito violento. Mas se tem uma coisa que não tolero é alguém que tenta levar os outros na conversa.

Uma vez diante do Rei, eles narraram o ocorrido.

Enquanto isso, a boneca ganhava novo recheio de macela e era remendada por uma costureira real, que aproveitou para lhe costurar um novo vestidinho.

Policarpo também recebeu novas roupas do alfaiate real.

Peri recusou a oferta de roupas novas, mas aceitou de bom grado um conjunto de arco e flechas.

O Rei também tinha algumas novidades para contar. Ele também já escutara sobre a tal Intempol, que vinha metendo o bedelho em vários lugares, algumas vezes causando tumulto.

– Estou muito preocupado com o que isto pode acarretar e tenho quase certeza de que eles têm a ver com o desaparecimento de seus amigos – disse o Rei, e continuou: – Agora sua missão de resgate torna-se uma missão real a serviço do reino de Pasárgada. Devem aproveitar essa oportunidade para descobrir quais as intenções dessa agência que muito me preocupa.

– Ficamos honrados, Vossa Alteza, sendo este um reino tão próspero e com um governante interessado em seu povo. Diferente dos existentes em meu próprio país. – respondeu Policarpo.

– Fico lisonjeado, mas todos, em qualquer lugar, podem se considerar co-cidadãos de Pasárgada. Para finalizar, gostaria de lhes oferecer mais uma ajuda, uma pequena dica. Como lhes havia dito, não tenho exército algum e nem creio que este se faça útil no caso, mas vão até o sul do Brasil. Uma vez lá, busquem por um certo Capitão Rodrigo. Ele poderá ajudá-los. Levem também esta carta de recomendação.

 

A situação era complicada para Rodrigo Cambará. Esse peste era mais ardiloso do que ele pensara.

Seu adversário podia parecer um frouxo, mas sabia lutar muito bem quando encurralado.

Já fazia um minuto que trocavam socos, e agora rolavam na relva, tentando se estrangular. Era uma briga equilibrada, sem dúvida, como a muito ele não tinha.

Porém, seu adversário acabara de puxar de uma faca e estava com ganas de terminar logo com tudo. Rodrigo já não sabia mais quanto tempo agüentaria.

Então, surgiu uma flecha, vinda não se sabe donde, cravou-se no braço de seu adversário, justamente o que empunhava a faca.

Rodrigo não tardou, e de súbito tratou de inverter as posições e imobilizou o adversário ferido. 

*** 

   Bela flechada, Peri! – Exclamou a boneca.

O trio corria na direção dos dois homens que brigavam há pouco. Peri, agora com a lança em punho, e Policarpo, que segurava o estranho revolver, ou melhor a Ter Mauser segundo as inscrições na lateral do cano, que fora do agente Augusto.

   Quem são vocês? – Perguntou o homem, que agora segurava seu adversário flechado, e que com a faca ameaçava seu pescoço.

   Estamos à procura de um tal de Rodrigo Cambará – adiantou-se a bonequinha – É o senhor?

   Estarei a ter devaneios?! – Arregalou-se Rodrigo.

Percebendo a confusão que estava prestes a começar, Policarpo catou a boneca e a enfiou no bolso de seu paletó.

   Não se assuste com ela – disse Policarpo, baixando a pistola. – Talvez possa nos ajudar, estamos em busca de um homem chamado Rodrigo Cambará.

   Pois me chamo Rodrigo Cambará, não estão do lado deste pobre infeliz pelo que posso ver, mas o que me garante que não estão, da mesma forma, à minha caça?

   Sinto dizer que, não há muito que possamos fazer para aliviá-lo dessa dúvida, mas viemos até aqui para buscar o seu auxílio.

   Sendo assim, comecem por me ajudar com este traste ensangüentado que tenho em meus braços, tchê! 

Peri e Policarpo ajudaram a amarrar o sujeito com quem Rodrigo havia lutado há pouco.

   Agora, sem mais tardar, terminemos as apresentações – disse Rodrigo, encarando Policarpo. – Como é a sua graça?

   Me chamo Policarpo Quaresma, este aqui é Peri e estamos auxiliando esta bonequinha a resgatar seus amigos que…

   És um tanto crescido para andar com bonecas no bolso – disse em chiste Rodrigo. Voltou-se então para Peri, repousando-lhe a mão sobre um dos ombros. – Tenho de agradecer-lhe, pois tens boa mira para um selvagem. Me salvaste de uma boa.

   Vou tomar isto como um elogio – respondeu Peri.

   Pois que assim seja! – Exclamou Rodrigo, sorrindo.

A boneca não parava de se debater dentro do bolso de Policarpo.

   Vocês querem minha ajuda, mas, como vêem, tenho já muitos problemas.  Este foi o primeiro que capturei de alguns intrusos que vêm importunando as vizinhanças.

   Creio que é justamente por isto que aceitará nos ajudar. Ao amarrar esse homem aí, pude perceber que possuía um artefato como este, que agora está em pedaços. Isto significa que se trata de um dos homens que também estamos perseguindo – disse Policarpo, erguendo a caixa do agente Augusto.

   Mas que conveniência! E de onde vosmecê vem? Noto que não são daqui, pelo sotaque.

   Viemos de vários lugares! – Exclamou a boneca, saltando do bolso de Policarpo.

   Poucas coisas me assustam, mas lhes digo que essa vossa boneca me dá arrepios.

   Não há por que. Lhe garanto que tem boa índole e é por ela que estamos aqui – explicou Policarpo. – Os amigos dela foram capturados, provavelmente por homens como esse que acabamos de aprisionar.

   Barbaridade! – Exclamou Rodrigo. – Esta história está ficando cada vez mais confusa.

   Deixa que eu conto tudo! – Antecipou-se a boneca.

   Não acho que este seja o melhor local para conversarmos mais sobre o assunto. Muito menos na presença desse… homem da Intempol. – disse Policarpo. – Rodrigo Cambará, aqui está uma carta de recomendação, lavrada pelo Rei de Pasárgada em pessoa.

Rodrigo leu a carta com um ar bastante intrigado.

   E vocês trabalham para esse Rei? – Perguntou o capitão.

   Não – respondeu Policarpo. – Ele apenas nos ajudou como pôde.

   Porque não sou ovelha desse nosso governo e não serei de outro.

   Se vier conosco, posso lhe assegurar que tudo lhe será explicado.

   E como chegamos ao tal reino?

E todos se voltaram para a bonequinha.

Convencer Rodrigo Cambará de que cheirando o pó de pirlimpimpim poderiam viajar até Pasárgada não foi tarefa fácil, mas apesar de toda a desconfiança, todos os quatro chegaram ao próspero reino, para assombro do bravo e eterno rebelde.

   Fantástico! – Exclamava o Rodrigo com os olhos arregalados. 

*** 

De volta ao palácio real, foram acomodados em aposentos e informados de que o agente Augusto havia desaparecido.

Sem perder muito tempo, a boneca contou ao gaúcho tudo que lhe ocorrera desde o incidente no sítio, enquanto jantavam ao redor de uma farta mesa, com os cumprimentos do Rei.

Policarpo mostrou também a pistola que pegara do agente, e decidiu deixá-la com Rodrigo. – Creio que o senhor fará melhor uso dela.

   É uma arma bem estranha – comentou o gaúcho. – Tem certeza de que funciona?

   Vi com meus próprios olhos. – respondeu Policarpo. – Se ainda tiver dúvidas, pergunte a ela sobre o rombo que o tiro abriu em sua barriga.

   Acredito em vosmecê. Aliás, depois de hoje, passarei a crer em muito mais do que imaginava possível – disse Rodrigo sorrindo.

   E você que dizes sobre isto? – Virou-se Rodrigo para Peri. O índio bebia o vinho como se fosse água, e apresentava claros sinais de avançada embriaguez.

   Não me importa. HIC! Para mim existe apenas minha Ceci.

   É casado?

   Nos amamos… e isto já basta… – Peri respondeu ao mesmo tempo em que sua cabeça tombava sobre o prato.

   Ha ha ha! – Gargalhou o Rodrigo. – Pode-se ver que nosso amigo não leva jeito para beber! 

   Mas então porque bebeu tanto? – Admirou-se a boneca.

   Na certa nunca experimentou álcool, não podia prever os efeitos. – Deduziu Policarpo.

   Índio tolo! – disse Rodrigo. – Mas me pareceu um sujeito honrado.

   Rodrigo! Senhor! – Disparou a boneca. – Conte-nos alguma história sua. Já participou de batalhas?

Rodrigo Cambará sorriu e respondeu. – Calma guria. Participei de muitos combates lá pelos pampas, principalmente contra tropas do governo. 

Ao escutar isto Policarpo sobressaltou-se, mas se conteve. Apesar de tudo ainda tinha dentro de si um espírito nacionalista exacerbado. Rodrigo, se percebeu não se importou e prosseguiu narrando um de seus combates contra tropas governistas.  

*** 

– E assim foi. Acabamos tendo de fugir. Ao menos deixei minha marca – concluiu o capitão.

   Nooossa! – Admirou-se a bonequinha.

   E tu? Qual tua história, amigo Pó de caco? – perguntou o Capitão no seu tom brincalhão.

   É Policarpo. – respondeu sem jeito. – A boneca é quem tem esta insistência em me chamar dessa forma. Posso apenas dizer que tive uma vida mais pacífica que a sua, apesar de ter participado da revolta da armada no Rio de Janeiro, do lado do governo. 

   Hay gosto pra tudo – disse Rodrigo. – Mas se me permite, a mim parece curioso que ainda estejas vivo!

   Sem dúvida. – respondeu Policarpo. – Mas, por mais absurdo que pareça, ao que tudo indica, este pó quando inalado nos permite viajar não só no espaço como no tempo.

   Já vi absurdos. Mas como este nunca. Mas quem sou para tirar conclusões? E agora, que fazes?

   No momento, apenas ajudo ela, e repenso meus ideais.

   Espero que se convença de que este governo de nada vale, já lhe adianto que em minha época as coisas pouco mudaram. Mas, mudando de assunto – disse Rodrigo aproximando-se de Policarpo e sussurrando. – Já fostes conferir essa fama local? Sobre deitar-se com qualquer mulher?

   Infelizmente, não houve tempo para isso. E também já não tenho mais idade para correr atrás de mulheres, nunca fui do tipo mulherengo.

   Pois eu sempre fiz questão de conferir as moças da terra! Mas tens razão. Já sabemos quem são os culpados por toda a confusão que tem se dado. Vamos até o covil desses diabos e armar o fandango por lá, encontrar os amigos da boneca e regressar para este paraíso! – Exclamou Rodrigo.

Aproximando-se ainda mais de Policarpo, Rodrigo sussurrou-lhe ao pé do ouvido, sem que a boneca escutasse. – E quanto a esta criaturinha de pano?

   Ainda não tenho opinião formada. Mas, ora bolas, estamos em Pasárgada! Uma boneca falante começa a não ser tão absurdo.

   Ei! Parem de mexericos! Não precisamos de um plano? – Perguntou a boneca.

   Sim – disse Rodrigo. – Pensamos em um hoje e amanhã o poremos em prática, quando estivermos descansados.

   Peri sem dúvida vai precisar se recuperar – completou Policarpo, virando a cabeça do valente guerreiro, para verificar que este dormia como uma pedra.

Peri estava bastante exaurido na manhã seguinte, mas com esforço acompanhou os demais.

O plano, no fim das contas, resultava em uma manobra bem simples e, até certo ponto, ingênua.

   Mas são táticas descomplicadas que costumam funcionar em momentos como este – ressaltou Policarpo. – Não é mesmo, senhor Rodrigo?

   Assim espero – respondeu Rodrigo secamente.

Todos cheiraram o pó e, em seguida, surgiram dentro de um pequeno aposento.

   Agente Augusto! Como vai? – Saudou a boneca.

O agente Augusto estava distraído aliviando sua bexiga no mictório de um dos banheiros, no andar em que trabalhava no prédio da Intempol.

Sem titubear, Rodrigo Cambará tratou de puxar a arma e encostá-la nas costelas do agente, que paralisou de medo.

   Larga os bagos e levanta os braços – ordenou Rodrigo.

Assim fez o agente prontamente.

   Mas antes, recolha suas coisas, estrupício!

   Sim, claro – respondeu o agente já bem confuso.

Rapidamente, Policarpo e Peri se encarregaram de revistar Augusto e retirar tudo que ele trazia em seus bolsos.

   Ele está limpo. Sem armas ou mesmo algum artefato como o que tinha.

   Muito bem, nos leve ao lugar onde ficam os prisioneiros!

Foi então que o alarme tocou.

   Idiotas! – Exclamou Augusto. – Achavam mesmo que conseguiriam sair daqui? É óbvio que, não contavam com as câmeras!

   Pois agora é que veremos! – Gritou Rodrigo Cambará.

O grupo correu para fora do banheiro tendo em sua dianteira o agente Augusto, escorraçado por Rodrigo Cambará. De saída, derrubaram dois agentes que os esperavam do lado de fora do banheiro.

Policarpo percebeu que a boneca não os acompanharia e acomodou-a dentro do bolso.

Peri corria na retaguarda de arco e flecha em punho.

Rodrigo puxara seu revólver e corria empurrando, a pontapés, o agente Augusto, a todo o momento perguntando onde estavam os prisioneiros. 

*** 

Mais dois agentes surgiram, um caiu com uma flecha de Peri e o outro com a Ter Mauser de Rodrigo Cambará.

   Mas que arma dos infernos! – Exclamava Rodrigo, entusiasmado.

Já bastante atordoado e ferido, o agente Augusto apontou uma porta logo depois de uma curva virando o corredor.

   Aqui! Aqui! Temos um preso aqui!

Mais uma vez Augusto foi adiante, usado como aríete, para abrir a porta da sala.

Todos entraram correndo, pois o grosso de agentes já estava no encalço do quarteto e vinham bem armados.

Peri e Policarpo trataram de tatear dentro do aposento escuro algo para bloquear a porta. A boneca saltou do bolso de Policarpo, enquanto o agente Augusto acendia a luz sob os berros de Rodrigo.

   Pobrezinho! – Exclamou a bonequinha quando a luz foi acesa.

Todos se voltaram para a triste figura de um papagaio, quase todo depenado e à beira da morte, dependurado por uma das patas numa vara de madeira, bem no centro do aposento.

   Um papagaio?! – Esbravejou Rodrigo, na direção do agente. – Eu lhe peço prisioneiros e tu me trazes para esta ave infeliz?

   Não há tempo. Rápido, temos que sair daqui! – Gritou Policarpo.

De imediato os quatro puxaram as quantidades já previamente separadas, e aspiraram o pó.

Mesmo sem fazer muita idéia do que estava se passando a sua volta, quando o papagaio sentiu o índio Peri segurar uma se suas asas, ele desejou ser levado dali de uma vez, e foi isso que aconteceu. 

*** 

FIUUM!!!!!!! 

*** 

Para todos foi um alívio se verem de novo vagando em meio ao vazio, mas Rodrigo Cambará não parou de lastimar-se um segundo sequer.

– Uma perda de tempo descabida!!

O grupo surgiu nos aposentos de Policarpo, no palácio real de Pasárgada.

   Escapamos por pouco – disse Policarpo aliviado.

   Pobre papagaio! Está quase morrendo. – A boneca mostrou-se aflita enquanto a ave era levada até uma cama.

   Por que esses homens fariam isso com uma pobre ave? – Indagava Peri, aproximando gentilmente o ouvido ao bico da ave que murmurava de forma quase inaudível.

   Esperem! – Disse o gaúcho com um sobressalto. – Que barulho é esse?

Rodrigo abriu a porta e, mal colocou a cabeça para fora, fechou-a de supetão.

– Eles estão aqui!

   Eles quem? Não vai dizer que… – assustou-se Policarpo.

   Exato! E não creio que poderemos fugir deles desta vez. São muitos! Já deveria ter imaginado que este refúgio era previsível.

   Oh meu Deus! – Exclamou a boneca. – Que faremos agora?

   Rápido, não há tempo! – exclamou repentinamente o índio – Peguem cada um, um punhado e me sigam!

   Para onde?! – gritou Policarpo.

   O papagaio acabou de nos revelar o que escondeu da Intempol – disse Peri sorrindo.

Uma grande confusão tomou conta dos corredores do palácio. Eram os agentes se aproximando.

O grupo não perdeu tempo.

O lugar era…

   Um matagal à beira de um rio! – Reclamava Rodrigo. – Eu poderia ter pensado em lugar melhor para estar!

   Calado! O pobrezinho está querendo dizer algo! – Ralhou a bonequinha.

   Curr-pac, papac! Curr-pac, papac!…

   Um medalhão dentro do rio? – Indagou Peri.

   Não me diga que compreende o que esse bicho está a dizer? – Revoltava-se Rodrigo Cambará.

A ave continuou a falar com Peri, enquanto o capitão dava as costas e se afastava possesso.

   Ora, faça como eu, Rodrigo – consolava Policarpo. – Depois de ver uma boneca falar e andar como gente, não duvido mais de nada.

Peri levantou-se. O papagaio se calara.

   Morreu? – Perguntou Policarpo.

   Não, apenas está muito fraco.

   E então, o que ele disse? – Perguntou a boneca aflita.

   Temos de encontrar o Muiraquitã no fundo do rio, é nossa única esperança.

   Quê quié isso?

   Não sei, mas vou procurar – disse o índio pulando n’água. 

***       

Peri começa a buscar o fundo do rio vindo à superfície apenas para respirar.

   Que vergonha! Os senhores, dois marmanjos, deixando o pobre do Peri buscar sozinho esse Mu sei lá o quê. Pó de caco, coitado, já ta velhinho, mas você, Rodrigo, bem que podia ajudar.

   E quem és tu para vir me pedindo tal coisa?

   Uma boneca. E por esse mesmo motivo não posso me molhar, caso contrário meu recheio de macela incharia e eu ficaria horrorosa. 

*** 

E a bonequinha desandou a matraquear sobre o assunto…

   Ai, que já me dá nos nervos! – Estourou o gaúcho. – Vou mesmo mergulhar de uma vez e tapar os ouvidos n’água. 

*** 

Agora eram os dois mergulhando e emergindo sem nada encontrar.

Entediado, Policarpo sentou-se na beira do rio, tirou os sapatos, arregaçou as calças, e começou a caminhar onde o rio era raso, tentando coordenar os dois companheiros em suas buscas.

   Mais para aquele lado, Peri! – Gritava Policarpo. – Rodrigo, tem certeza que já não procurou por aí?

Foi quando, já com a água até o meio das canelas, Policarpo não se deu conta de uma pedra no leito do rio tropeçou e caiu.

A bonequinha foi a primeira a rir, pois assistia a tudo, de uma distância segura, sentada num troco caído, ao lado do papagaio que continuava desfalecido.

As risadas aumentaram quando Policarpo levantou-se encharcado e cheio de lama, com algo preso ao beiço, o que o deixava com um visual bastante cômico.

   Ei! Isso é meu! – Intercedeu uma voz vinda de dentro do mato logo atrás da boneca.

As risadas pararam e todos se voltaram para a figura escura e perneta de pé atrás da boneca.

   Saci?! – Exclamou ela.

   Que Saci que nada. Esse aí é o tal do Macunaíma. – exclamou o papagaio que acordara de supetão.

Os três homens que estavam no rio trataram de sair rápido de dentro d’água para conferir o recém chegado que entediado, sentou-se no tronco ao lado do papagaio.

   Macunaíma, o herói? – Estranhava Peri se aproximando.

   O lendário Macunaíma? – Completou Policarpo.

   Quem há de ser esse Macunaíma, tchê?

   Ai! que preguiça!… – Exclamou Macunaíma.

   Nossa! Que fedor! – Exclamou a boneca enojada. – Ele é branco, mas está escuro de tão encardido e sujo!

   Igualzinho da última vez que nos vimos – disse o papagaio.

Macunaíma levantou-se e saltou em sua única perna até o rio onde mergulhou e se banhou. 

*** 

A figura que agora saía de dentro do rio era bem diferente da que entrou. Excetuando o fato de ser perneta, é claro.

Agora, podia-se ver o tom loiro dos cabelos, a pele branca e os traços finos. Um homem de belas feições estava escondido por debaixo de tanta sujeira que chegou a manchar as águas do rio.

   Satisfeitos? – Perguntou o herói. – Precisava mesmo de um banho. Me dê, agora, o meu Muiraquitã.

Peri pegou o Muiraquitã das mãos de Policarpo e entregou para Macunaíma.

   Quantas saudades… – Sussurrou Macunaíma afagando carinhosamente sua jóia tão estimada e prendendo-a no beiço. Foi então que abraçou Peri e começou a soluçar e chorar copiosamente.

   O que foi que deu nele? – Perguntou Rodrigo.

Todos se entreolharam sem saber o que dizer, inclusive Peri que já lacrimejava em solidariedade.

   É uma longa história – disse o papagaio que agora falava o português com certa desenvoltura. – O Muiraquitã é a única lembrança que ele tem de sua amada Cí, a Mãe do Mato, que há muito subiu para o céu. Tempos atrás, o herói perdeu tanto a perna quanto o Muiraquitã dentro deste rio, levados pelas piranhas. Depois de algum tempo, ele desistiu de procurar e também subiu pro céu.

   Piranhas!? – Exclamou Rodrigo.

   Pelo visto este rio já não mais as tem – respondeu o papagaio.

   Afinal de contas, o que tudo isso tem a ver? – Perguntou Policarpo.

Macunaíma então cessou a choradeira, enxugou as lágrimas e continuou a explicar.

– Depois de muito bazá, solitário pelo céu afora, resolvi voltar. Primeira coisa, fui rever meus antigos domínios do Mato Virgem, onde já imperei. Chegando lá, vi que boa parte já num era virgem não, de tão revirada e cavocada que estava, repleta de estranhos.

Caminhei então pras bandas de São Paulo pensando em arrumar uma daquelas cunhãs polacas. Antes disso, me detive num sítio, onde virei marimbondo e fartei-me das jabuticabas de um dos muitos pés que lá estavam. Foi lá que encontrei com esta boneca que, do pé de uma das jabuticabeiras, observava uma garotinha comendo as frutinhas.

   Oh! Meus Deus! – Exclamou a boneca. – Foi justo quando minha amiga comia jabuticabas que os homens armados invadiram o sítio!

   Comparsas dos que reviravam o Mato Virgem, logo percebi – disse Macunaíma.

   E o senhor não fez nada? – Indignou-se a boneca.

   Como não? – Virou-se o herói para a boneca. – Pousei no seu ombro quando já estava sozinha e a mandei buscar a ajuda de Policarpo.

   Mas justo a mim? Por que? Já me conhecia? – Perguntou Policarpo.

   Ora, não me pergunte essas coisas. Mas, no momento, me perguntava quem poderia encontrar o Muiraquitã, e aí está, foi você quem o encontrou!

   E por que não foi junto? – Perguntou a boneca.

Ai! Que preguiça!… – exclamou o herói – Achei melhor dormir no sítio mesmo, enquanto esperava seu retorno. Mas, jacaré voltou? Nem você. E fui-me embora que tinha mais o que fazer.

   É isso, vou-me embora! – Esbravejou Rodrigo. – São todos uns loucos!

   Não! Não se vá! Precisamos do senhor para resolver esse caso – suplicava a boneca. – Estamos todos à mercê dessa… Intempol. Se nos separarmos, seremos todos capturados, tal como foram meus amigos.

   Mas sequer sabemos por onde começar! – Insistiu Rodrigo. – Não vou arriscar mais uma vez minha pele em uma empreitada suicida.

   Mas agora teremos a ajuda de Macunaíma! – disse Peri.

   Sim, Macunaíma, nos diga se sabe onde estão os amigos dela – disse Policarpo.

   Não faço idéia – respondeu o herói.

   Curupác! Mas eu sei! – Esgoelava-se o papagaio.

   Então diga logo! – Enervou-se a boneca.

A ave limpou a garganta e contou:

– Pelo simples fato de ainda se lembrar de seus amigos, posso dizer que algo de muito estranho está ocorrendo. Eles foram mandados para um local de onde dificilmente se pode esperar fugir, pois uma vez condenado a essa prisão, todo e qualquer traço de sua existência, em todo e qualquer tempo, é apagado. Essa prisão é conhecida como “A prisão dos homens que nunca existiram”.

   E como salvá-los de tal lugar? – Indagou Peri.

   Deixe que o papagaio nos conte tudo – voltou-se Rodrigo Cambará de súbito. – Ao que parece, essa falha não existe por acidente, não é? E por que não nos contou antes sobre isto e nos fez perder tempo nadando naquele rio até encontrar o enfeite!

   O gaúcho é um homem perspicaz. – elogiou o papagaio. – E é justo por causa disso que vocês precisarão do herói.

   Minha ajuda? Por que? – Indagou com escárnio Macunaíma. – Já tenho o que queria, agora só me falta uma perna.

   E se eu lhe disser que Piaimã é quem lidera o grupo de agentes que tem causado tanta perturbação a todos? – disse o papagaio. – E que o que ele quer de fato é…

   Impossível!!! – Berrou Macunaíma. – Eu mesmo o vi morrer naquele fosso!

   Concordo. Mas eu mesmo o vi. Ele esteve lá na sala em que fui encontrado, enquanto me torturavam tentando me forçar a revelar alguma informação sobre você.

   Explique-se melhor – disse Policarpo.

   Não há o que explicar. Ele estava lá, e quer se vingar do herói.

   Mas então por que prendeu meus amigos? – Insistiu a boneca já bastante aflita.

   Isto já é outro caso. Pelo visto, obter o pó de pirlimpimpim é a real função de seu departamento da Intempol, mas não me pergunte pra que eles o querem.

Todos se calaram, menos a boneca. Ela queria porque queria que o papagaio lhe mostrasse onde ficava a tal prisão, por mais que a ave negasse qualquer conhecimento a respeito. Até que o papagaio, cujas penas já haviam crescido, se encheu e voou pra bem longe até sumir de vista. 

*** 

   Lá se foi – disse a bonequinha desiludida.

   Não se entristeça, ele nos disse tudo que sabia – disse Policarpo apanhando-a em seus braços. – É o papagaio mais bem informado que já vi.

   E mesmo assim não soube nos dizer tudo… – lamentava a boneca

   Ei! Vocês conhecem aquela do papagaio? – disparou Macunaíma.

 

Silêncio.

 

   Num momento destes e esse parvo me vem com gracejos! Se eu pudesse voar já teria feito o mesmo que o papagaio – disse Rodrigo. – Gosto de uma boa luta, mas temos de saber reconhecer quando a coisa está aquém de nossas capacidades.

   Mas… – Policarpo tentou dizer algo.

   Mas o quê? – Interrompeu Rodrigo Cambará. – É claro que esse tal Piaimã nos aguarda em alguma armadilha! E o que fizemos até agora foi apenas nos juntarmos para que ele nos capture a todos de uma só vez!

   E é por causa disso que devemos permanecer juntos! – Replicou Policarpo. – Até onde pude perceber, todos aqui já estavam vulneráveis à Intempol em seus locais de origem.

Macunaíma teve seu mato virgem destruído, a bonequinha quase foi capturada com seus amigos, eu imagino que seria assassinado em meu cárcere, o Capitão Rodrigo já enfrentava um dos agentes que tencionava capturá-lo,…

    Eu não – interrompeu Peri, e todos voltaram olhares interrogativos para o índio que, encabulado, completou. – Mas que importa? Depois de tudo por que passamos estou na mesma canoa.

Policarpo sacudiu a cabeça e prosseguiu.

– Nossa única chance é a de unidos nos mantermos fora do alcance desse, Piaimã. E detê-lo.

   Então, o que vosmecê sugere, velho? – Indagou Rodrigo.

   Bom, é certo que Piaimã nos têm cercados. Podemos seguir fugindo pelo mundo afora até que nosso pó de pirlimpimpim se acabe, mas ele vai acabar nos capturando mais cedo ou mais tarde. Vejam lá, não sou nenhum estrategista, mas creio que a melhor saída será surpreendê-lo saltando dentro da armadilha. Estou certo, Capitão?

   Humm… – O gaúcho parou pensativo coçando o queixo. – Hay chance. É ousado, mas uma tropa encurralada sempre pode surpreender se ao invés de recuar, sair em carga contra um ponto fraco do inimigo.

   É verdade, já o fizemos de certa forma quando invadimos a Intempol antes e, apesar de quase termos sido todos capturados, fomos bem sucedidos. – lembrou Peri. – Mas o que pretendes com isso? Matar Piaimã apenas?

   Ai!  Que preguiça…

   Esperem! Já sei! – Gritou a boneca sorrindo. – Acabei de bolar um plano usando essa tática de surpreender o inimigo, e em que ao mesmo tempo poderemos encontrar e salvar meus amigos!

   Pois diga logo do que se trata! – Exclamou Policarpo.

A bonequinha não perdeu tempo e desandou a falar.

Para começar, precisamos que o herói nos leve até seu antigo reino do Mato-Virgem…

O Mato-Virgem, onde Macunaíma certa vez imperou, em boa parte já não mais era a exuberante mata intocada, verdejante e cheia de vida.

Uma série de clareiras fora aberta, onde um complexo de mineração se instalou. Tudo sob o controle de agentes do D.R.F. (Departamento de Realidades Fantásticas) fortemente armados, apesar de em pouco número.

O minério tão cobiçado é nada mais nada menos que o pó de pirlimpimpim, ainda em estado bruto, sem ter sido manipulado pelas fadas. 

*** 

   Senhor! Senhor! – Exclamava um agente ao seu superior. – Encontramos estes dois aqui perambulando pelas imediações da base de operações!

   Muito bem. – respondeu o superior que parecia se tratar do responsável pela segurança local. – Digam seus nomes!

   Eu me chamo Policarpo e acompanho esta boneca.

   Um homem dessa idade andando por aí com uma bonequinha!? – Disse em meio a risadas o agente superior.

   Acontece que eu não sou uma bonequinha qualquer, viu? – Retrucou indignada.

O agente superior se surpreendeu, mas não perdeu a compostura.

– Já devia esperar por algo assim. Dentro da agência já vi muitas coisas estranhas, mas este departamento é dos mais esquisitos. Eles já foram revistados?

   Sim senhor! Não encontramos muita coisa com eles, além de um pouco de pó nos bolsos, esta caixa cronal e nenhuma identidade.

   Devem ser espiões; provavelmente pertencem ao grupo que a chefia está doida pra encontrar. Pois mal sabem o que lhes aguarda. Levem-nos para o chefe! Ele vai saber como cuidar deles!

Dito e feito. Em pouco tempo, Policarpo e a boneca foram levados a uma pequena sala dentro dos escritórios da Intempol.

Chegaram lá com a ajuda das tais caixas cronais, e puderam entender melhor como funcionavam aqueles artefatos pretos, notando que as mesmas dependiam dos respectivos cartões. E os números desenhados, quando pressionados, é que ativavam os artefatos. Mas ainda era tudo muito estranho para ambos.  

De qualquer forma, lá estavam ambos escoltados por dois agentes da Intempol, dentro do que parecia ser uma ante-sala, e defronte a uma imensa porta dupla onde se podia ler em uma plaqueta: “Chefe do Departamento de Realidades Fantásticas”.

Ao lado da enorme porta, uma mesa com uma cadeira, onde uma bela mulher se sentava, compunham a única mobília da ante-sala.

   Vocês querem ver o chefe? – Perguntou a mulher, que lixava as unhas, distraída.

   Sim! Avise-o que trazemos prisioneiros. Possivelmente, parte do grupo que ele está à procura – respondeu um dos agentes.

   Mas, depois disso, estarei livre e posso ir contigo pronde você quiser – completou o outro.

A mulher deu um ligeiro sorriso e falou para uma pequena caixa.

– Senhor? Tem dois agentes aqui com prisioneiros. O senhor quer vê-los?

Uma voz grave respondeu da caixa.

– Mande-os entrar!

As duas metades da porta que, juntas, Policarpo deduzia, deviam somar uns 5 de largura por 9 de altura, se abriram sozinhas, apenas com o simples toque de um dos agentes na parede ao lado.

Adentrando a sala, Policarpo e a bonequinha se sentiram como que reduzidos. Tudo em seu interior era imenso. E logo perceberam o porquê ao verem a figura do que parecia o sorridente chefe do D.R.F. Ele vestia um belo terno e possuía um grande bigode, agachando-se para recepcioná-los.

Prazer em conhecê-los. Sou Venceslau Pietro Pietra. E os aguardava há algum tempo.

 

Peri e Rodrigo Cambará já estavam posicionados para atacar os agentes que faziam a segurança do complexo de mineração. Ambos empunhando suas armas e esperando o sinal do Herói, que entraria trazendo ajuda, vindo pelo outro lado da principal clareira.

Rodrigo Cambará já estava impaciente.

– Maldito folgado! Já está atrasado! Deve ter nos enganado e já ganhou o mundo. Ficaremos os dois aqui dando sopa para sermos capturados também.

   Acalme-se. – Peri contemporizava. – O herói não deve ter ganho esse título sem razão.

   Pois eu digo q…

   Espere! Está escutando?

  

   Vindo do mato, além da clareira.

Os dois começam a buscar a origem exata do barulho que a Rodrigo soava como uma cavalaria a toda a carga.

Logo começam a despontar aves em grande revoada por sobre as copas das árvores, intensificando ainda mais o barulho que já chamava a atenção de todos que trabalhavam na mineração. Todos se voltaram para o ponto de onde saiu Macunaíma correndo como o diabo da cruz. Peri e Rodrigo conseguiram reconhecê-lo apenas pelo seu vulto, que cruzava a clareira e, num piscar de olhos, surgiu atrás dos dois.

   Olá! – Saudou o herói.

Seus dois companheiros, ainda boquiabertos e assustados, não conseguiram compreender de onde viera tanta velocidade. E, muito menos, o que ainda estava por vir, pois o estrondo aumentava cada vez mais e não só as aves revoavam tal como as copas das árvores próximas à clareira chacoalhavam. Já era possível sentir um leve tremor no chão.

   Não foi fácil, mas consegui reunir a todos! – Disse o herói retomando o fôlego. – Tive de correr todo o país numa perna só em duas horas, mas… Opa! Aí vêm eles!

O herói sumiu no exato instante em que surgiu da mata uma turba dos mais variados seres.

Peri conseguiu reconhecer dentre eles o Currupira Cobra Preta formiga tracuá Capei um mar de formigas saúva Oibê Caiuanogue… Mas a maioria era estranha até mesmo para ele que crescera escutando tantas lendas.

A balbúrdia se instalou, pois de imediato os agentes que faziam a segurança do local começaram a disparar contra os invasores, o que se mostrou um grande erro, uma vez que estes são os seres que regem as leis por todas as matas e neste momento estavam todos furiosos e frustrados por terem perdido o herói de vista.

Uma batalha teve início. Alguns agentes morreram sem sequer saber o que os atingiu, enquanto outros tiveram tempo apenas de fugir usando seus cartões cronais. 

*** 

Rodrigo e Peri estavam paralisados da mesma forma, e não se atreviam a pisar na clareira onde aquela força da natureza devastava tudo em seu caminho.

Num estalo, Rodrigo Cambará voltou a si e cutucou Peri.

– Vamos! O que estamos esperando? Temos de correr para o centro de comando, enquanto Macunaíma distrai os guardas!

Ambos pularam dentro da clareira e correram na direção da cabana que, como haviam previamente observado, servia de centro de operações local.

Já estavam a poucos metros da cabana, quando viram sair de dentro dela um sujeito parrudo e bigodudo vestindo um terno de fino corte.

– Parece ser este o tal Piaimã! – Gritou Rodrigo para Peri. – Se parece com a descrição!

Os dois continuaram a correr na direção da porta diante da qual o sujeito estava agora parado encarando-os com ódio no olhar.

Mas a dupla logo estancou e ambos pararam boquiabertos olhando para o alto.

   Mas parece que Macunaíma esqueceu de nos avisar de um detalhe… – murmurou Peri.

É verdade. O herói não mencionara que Piaimã era um gigante em sua forma natural, e sentindo-se ameaçado cresceu de novo até atingir toda sua enormidade.

   Quando me disseram que tínhamos problemas por aqui, não imaginei que fossem tantos! – Exclamou o gigante.

   Atire! – Ordenou o gaúcho.

Nem balas ou flecha feriram o gigante, que com apenas uma das mãos protegeu-se dos disparos e inclinou-se na direção de seus dois oponentes, que saíram em disparada.

   Acham que podem fugir de mim? – Gritava o gigante. – Pois vou prendê-los junto com os outros dois que capturei há pouco. E não duvido que Macunaíma esteja por aqui.  Logo será a vez dele! 

*** 

A prisão dos homens que nunca existiram era o destino final de Policarpo e a boneca. Eles foram encaminhados para o mesmo conjunto de celas onde estavam os amigos da boneca, cada qual em sua própria cela.

   Por favor, seu guarda – resmungava a boneca. – Poderia me deixar falar uma última vez com meus amigos?

   Não posso.

   Mas ficarei confinada a minha cela e nunca mais poderei vê-los, deixe que ao menos me despeça deles.

O agente parou e olhou nos olhos tristonhos da bonequinha.

– Muito bem, mas que seja rápido.

A boneca passou por cada uma das celas e disfarçadamente chamou a atenção de cada um dos seus amigos para a costura solta em seu braço. Acontece que, ao invés de macela, o que saia pelo buraco era pó de pirlimpimpim, do qual cada um pegou um bocado.

A boneca despediu-se também de Policarpo e, assim que ambos foram trancafiados em suas celas, todos cheiraram o pó.

Dona Benta e companhia voltaram sãos e salvos para o seu recanto no Sítio, mas Policarpo e sua companheira ainda tinham de ir ao encontro de seus companheiros lá no Mato-Virgem.

Peri e Rodrigo Cambará corriam já bastante esbaforidos, enquanto Piaimã os atiçava.

– Hoje mesmo preparo uma janta como há muito não tinha!

   É um Deus nos acuda! – Berrava o Rodrigo Cambará. – Herói de bosta esse Macunaíma!

   E pelo visto, o gigante ainda por cima é comedor de gente! – concluía Peri.

   Parado aí! – Exclamou uma voz logo atrás da dupla, e, só depois de perceberem que o gigante parara, resolveram olhar e ver que ali estava o herói cheio de pose com um dos braços estendido encarando firme Piaimã.

   Por fim, apareceste, Macunaíma! – Exclamou Piaimã com um olhar de satisfação.

   Mas agora tu num pega meu Muiraquitã nem que a vaca tussa! – respondeu o herói.

   É isso que veremos!

   Ó eu aqui! Ó eu! – Desandou a gritar o herói, de tal forma e com tanta força que a turba que o perseguira até ali e que já ia lá pelo outro extremo do complexo de mineração revirando tudo em busca do herói, voltou-se de imediato e disparou na direção de Macunaíma.

 Piaimã pôs-se claramente surpreso com a situação e, quando se voltou para encarar a turba, o herói virou um grilo e fez questão que todos vissem que pulara dentro do terno do gigante.

  Num instante Piaimã, o comedor de gente, foi coberto por todos: Currupira Cobra Preta formiga tracuá Capei um mar de formigas saúva Oibê Caiuanogue… todos os desafetos que Macunaíma colecionara ao longo de sua existência. Eles em pouco tempo rasgaram por completo as roupas do gigante, mas seguindo sem sinais do herói acabaram por devorar o próprio na esperança de que dentre aqueles restos estivessem os do herói. 

*** 

Quando Policarpo e a boneca chegaram ao local puderam ver apenas a poeira baixar, enquanto os últimos dos algozes do herói se retiravam da clareira, alguns frustrados, outros satisfeitos.

Observando a tudo sentados no chão, estavam o gaúcho e o índio, pasmos com a cena de selvageria mais dantesca que poderiam conceber.

   Que se passa por aqui? – Perguntou a boneca.

   Vêem aquela mancha vermelha? – Disse Peri apontando. – Foi o que sobrou de Piaimã e do herói.

   Quer dizer que ambos morreram? – Exclamou Policarpo.

   Prefiro não entrar em detalhes, mas não creio que até mesmo ele possa ter sobrevivido – respondeu Rodrigo.

   E os seus amigos? – Perguntou Peri.

   Estão a salvo no Sítio. Tudo correu como esperado – respondeu a boneca. – Apenas nos certificamos que estavam a salvo e viemos “correndo” pra cá.

Os quatro companheiros se abraçaram e lá ficaram sentados juntos, olhando pensativos para a enorme mancha de sangue. 

*** 

Nem um minuto após a chegada da boneca e de Policarpo, surgiu próximo ao grupo um clarão que se abriu de forma muito estranha, como um retângulo de pé, que se alargou até certo ponto para ambos os lados.

Observando melhor, os quatro notaram que aquilo não era um clarão apenas, mas uma espécie de passagem e, do outro lado, estava um pequeno aposento quadrado. Ao lado da passagem, do lado de dentro, surgiu um preto velho que parecia estar sentado num tamborete.

O velho acenou de forma gentil pedindo que eles adentrassem o aposento.

   Só pode estar doido se pensa que… – exclamou Rodrigo, que logo se calou ao encarar o intenso olhar de censura do velho.

   Seja quem for – disse Policarpo – algo me diz que ele foi mandado pela Intempol.

O velho esboçou um breve sorriso.

         Vamos fugir! – Exclamou a boneca.

         Não! – interveio Policarpo. – Fizemos o que tínhamos de fazer. Isto só demonstra que nossos antagonistas já nos têm ao seu alcance.

         Tens razão. – completou Rodrigo Cambará. – Podemos continuar a fugir até que o pó se acabe, e então… Melhor encará-los desde já. Vamos olhá-los nos cornos e tirar tudo a limpo.

Todos os quatro se entreolharam, e optaram por fazer a vontade do estranho velho.

Por dentro, o ambiente era bem iluminado e, tão logo os quatro estavam do lado de dentro, o velho tocou alguns números semelhantes aos das caixas que os agentes da Intempol possuíam, a diferença é que estes estavam num canto de uma das paredes do aposento. Em seguida, notaram as portas deslizantes internas se fechando sozinhas, o que foi seguido por uma ligeira pressão vinda do chão do aposento, levando-os a crer que tudo aquilo havia se colocado em movimento vertical.

Foram alguns segundos e logo a sensação de que a coisa parara de se movimentar pode ser sentida e comprovada com a reabertura das portas.

O velho, muito sereno, nem um pio emitiu ou sequer olhou duas vezes para os quatro.

Novamente o velho fez um gesto com a mão, só que agora os convidando a sair.

Do outro lado, agora estava uma grande sala belamente decorada, onde do lado oposto se destacava um indivíduo sentado a uma vistosa mesa.

Quando se deram conta, o aposento onde estava o preto velho sumira.

O ser do outro lado da mesa possuía formas humanóides, mas sua aparência era no mínimo bizarra. Ele sequer se deu ao trabalho de levantar-se, e começou a falar.

   Não me perguntem nada. Sei muito bem quem vocês são e por hora não vem ao caso minha identidade.

    

   Eu tenho de parabenizá-los pelo brilhante desempenho! Por um momento achei que não conseguiriam, mas vocês são de fato extraordinários! Mesmo tendo me custado um valoroso membro da organização.

  

   Mas, ainda assim, os trouxe até aqui para propor-lhes que substituam Venceslau Pietro Pietra dentro da Intempol. Tenho certeza que saberão assumir as funções do falecido com muito mais eficiência. O que acham?

   O quê?! – Disparou a boneca. – Primeiro nos perseguem, prendem meus amigos, e agora querem nos contratar para prosseguir com seus serviços de banditismo?!

   Ela está certa! – Apoiou Rodrigo. – Por mim acabo com vosmecê aqui mesmo!

   Aconselho a não tentarem nada do gênero aqui – respondeu com calma o sujeito. – Garanto que seria ineficaz e as conseqüências para vocês seriam devastadoras.

   Arre!

   Calma, Rodrigo! Vamos escutar o que o-o… homem tem a dizer – disse Policarpo.

   Bem pensado. Lamento que tenham nos conhecido dessa forma, mas asseguro-lhes que tudo isso não foi nada mais nada menos que a conseqüência do mau direcionamento dado por Venceslau ao departamento do qual ele era encarregado.

   Então, por favor, nos diga qual exatamente é a função do tal departamento – perguntou Policarpo.

    A Intempol é uma enorme agência que zela pelo futuro, presente e passado. Somos os detentores da tecnologia de deslocamento temporal. Como em qualquer organização, nossas atividades são divididas em setores e departamentos. O D.R.F., ou, se preferirem, Departamento de Realidades Fantásticas, é um deles, e tem como função supervisionar as L.T.A.s, ou melhor dizendo, Linhas Temporais Alternativas, dentro dessas realidades e assegurar que nada saia do controle.

   Mas então por que toda a movimentação em torno do pó de pirlimpimpim? E por que invadiram o Sítio da boneca? – Tornou a perguntar Policarpo.

   O D.R.F. serve também de fachada para sua mais importante tarefa, algo da qual a Intempol depende em muito. A extração do pó de pirlimpimpim nos é vital, pois esse pó é a matéria-prima para os circuitos das caixas registradoras, os aparelhos que tornam possível o deslocamento temporal. Algo de extrema raridade em qualquer outra realidade, mas que pode ser encontrado em abundância na jurisdição do D.R.F. No Mato-Virgem está nosso principal jazigo, mas o local do Sítio foi catalogado como possuidor de um grande veio do minério. Tal como certas áreas no sul do Brasil.

   E porque extrair esse minério de forma tão bruta e atacar pessoas indefesas levando-as de seus lares? – Perguntou Peri.

   Como já disse, isso tudo fazia parte da linha de ação de Venceslau, que parece tê-la adotado para atrair o tal Macunaíma que, segundo soube, já vinha sendo seguido há muito, para afinal cair numa armadilha. Até onde sei este Venceslau é proveniente de outra L.T.A. onde ele não foi morto por Macunaíma. Mas tomando conhecimento de sua derrota nesta L.T.A. o gigante resolveu se vingar.

   Isto explica muito. – disse Policarpo.

   Mas isto não explica o que a Intempol quer conosco. – interpôs-se Rodrigo Cambará.

   Como já disse. Queremos que trabalhem para nós, assumindo o comando do D.R.F. que agora se encontra sem chefia.

   E vosmecê nos quer para que possamos conduzir as coisas da forma mais sutil possível não é? – Indagou jocoso, Rodrigo.

   Exato. Sem falar na habilidade que possuem de se deslocar usando essa versão do pó que segundo soube é manipulado por fadas. Tal uso lhes parece simples, mas para os não nativos destas realidades de onde os senhores provém, ainda é um mistério que gostaríamos de desvendar.

   Há! Acredito! E se mesmo assim nos negarmos? – Prosseguiu Rodrigo.

   Vocês já sabem demais. Não teríamos opção que não matá-los. E ainda seríamos obrigados a impor restrições máximas às L.T.A.s por vocês conhecidas. Nada agradável.

Os quatro se entreolham.

   Nos daria um minuto para discutirmos entre nós sua proposta? – Pergunta Policarpo.

   Sejam breves.

O grupo confabula rapidamente num pequeno círculo no canto do aposento, e logo chega a um consenso.

   Decidimos aceitar sua proposta – disse Policarpo aproximando-se de forma a dar mais pompa ao beco sem saída em que se encontravam. – Mas existem algumas condições.

   E quais são elas? – indagou intrigado o ser. Algo que poderia ser confundido com deboche se os interlocutores pudessem se dar ao luxo de julgar qualquer coisa.

   A boneca quer poder seguir vivendo no Sítio, assim como Peri, que tem mulher e filhos, para quem voltar. Rodrigo Cambará sem dúvida deseja tocar sua vida nos Pampas. Mas, em compensação, eu posso ficar, afinal de contas nada mais me resta onde morava, salvo uma ou duas pessoas queridas cuja saudade posso matar em breves visitas.

   Entendo. Em todo o caso, se necessário, todos os quatro teriam de se apresentar sempre que requisitados, principalmente em casos de emergência. Todos serão nossos agentes. De acordo?

   De acordo. – respondeu a bonequinha.

   Que seja. – conformou-se Rodrigo.

   Está bem. – sorriu Peri.

   Estamos todos de acordo. – concluiu Policarpo.

   Fico feliz em saber – disse o indivíduo cujo rosto mantinha a expressão imutável. – Podem ir agora. Vocês receberão as instruções necessárias para que possam assumir o departamento.

Atrás do grupo, surgiu novamente o pequeno aposento com o preto velho. Eles adentraram novamente e sentiram que caíam lentamente.

 

 

Epílogo: 

O escritório era improvisado, pois dadas as proporções do antigo escritório de Piaimã, Policarpo optou por ocupar este enquanto o outro era reformado.

Sua secretária era a mesma que antes servia ao gigante. Dona Clara é a forma como Policarpo a chama. 

Ontem ele esbarrou no corredor com o agente Augusto, que arregalou os olhos de susto, ainda mais quando viu pendurado no peito de Policarpo o crachá de chefe de departamento nível 5. Policarpo achou melhor não assustar ainda mais o homem e apenas acenou sorrindo. 

O contato com os companheiros, que estão longe se dá de forma inconstante, e muitas vezes inesperada. Mas Policarpo sabe que tudo está correndo como deveria. 

A bonequinha de pano conseguiu contatar as fadas e estas concordaram em ceder parte da produção aos cuidados de Policarpo, sob o argumento de que a atividade de mineração seria reduzida em muito, o que tem sido feito. 

No momento Policarpo se encontra consumido na sua mais nova obsessão: vasculhar os arquivos da Intempol, e tentar entender qual o padrão das atividades da agência, se é que existe algum. E o que existe além do nível 5 de comando. Ele acredita piamente que um dia vai descobrir o nome do ser que os contratou, entre diversas outras curiosidades, cuja lista só faz aumentar a cada dia.

– É, tenho muito trabalho, mas tempo é o que não me falta – comenta consigo mesmo o incansável Policarpo enquanto vasculha pilhas e pilhas de papéis, e cruza com dados na incrível máquina / artefato computador, que aos poucos aprende a usar.

   Ai! Que preguiça… – exclama Macunaíma desde sua rede num dos cantos da sala.

Chegou um belo dia, do nada, e não se importou em dar explicação alguma, foi logo armando a rede e deitando. Desde então, só fez “brincar” com Dona Clara, dormir e dar em cima de outras “cunhãs” como ele as chama, nos corredores da Intempol.

 

FIM

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Feb
12
2009
0

Terry Pratchett

Um excelente autor inglês que eu não canso de elogiar.

Estou terminando de ler mais um dos muitos livros deste que é o criador de um dos mais interessantes universos de ficção, o Discworld.

Um mundo em forma de disco, apoiado sobre quatro elefantes enormes que por sua vez caminham em círculo sobre o casco de uma tartaruga ainda maior.

Pode parecer mais um universo de fantasia, e é, mas além dos tradicionais elementos e seres, está o humor sarcástico e sutil do autor. Desta forma ele aborda todos os temas do nosso mundo, sem nem mesmo se importar com limitações de um mundo teoricamente medieval. A verdade é que Discworld é um mundo fantástico por excelência.

Comecei a simpatizar com Pratchett depois de ler o livros Belas Maldições (Good Omens) em que ele e Neil Gaiman criam uma paródia cômica do livro “A Profecia”.

Depois disso é que decidi ler os livros de Discworld e constatei que o Belas Maldições não é, na minha opinião, um livro escrito a quatro mãos. É possível perceber que o Neil Gaiman contribuiu sim com algumas idéias, mas o livro foi escrito pelo Pratchett. As mesmas tiradas cômicas e observações típicas e comuns à obra do autor estão ali. Não que Neil Gaiman seja ruim ou inferior, o cara escreveu Sandman, apenas que seu estilo é outro. Muito mais sóbrio e direto.

Leiam e me digam se não é verdade.

A propósito, Rosele que me perdoe, tenho para mim que o Gaiman se resume a Sandman. Quanto mais ele se distancia deste universo, mais sem graça ficam seus livros. Constatei isso quando assisti a Stardust e observei personagens sendo muito bem explorados, coisa que no livro não ocorre.

Acho que Coraline seguirá no mesmo caminho. O que é bom, pois de certa forma Neil Gaiman dará origem a bons filmes.

Mas voltando a Discworld.

Uma leitura que recomendo, se você curte aventura, fantasia e humor. Em particular os primeiros livros onde conhecemos o mago wannabe Rincewind (os nomes dos personagens são uma diversão à parte), que possui mais lábia e sorte que magia e um excelente senso de auto-preservação.

Neste livro também conhecemos o que talvez seja a maior personagem dos livros que é cidade de Ankh-Morpork, em torno da qual, muitas das histórias giram.

Mas nem tudo é perfeito, existem alguns livros em que eu cheguei a pensar que o tema estava se esgotando. Porém, eis que surgiram novos livros: Thud, Going Postal e Making Money. Ainda sem edição nacional.

Todos passados em Ankh-Morpork e de fato uma volta às origens. Making Money é uma continuação de Going Postal, com o mesmo personagem principal. Desta vez um charlatão profissional que tal como Rincewind, sai de enrascadas usando as palavras, porém com mais elegância.

Ainda existem muitos livros dele para eu ler e assistir pois descobri que alguns dos livros de Discworld já possuem versão filmada, mas tenho cá minhas dúvidas.

Se alguém tiver mais recomendações de livros dele eu agradeço, ou mesmo de outros autores.

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