Jan
19
2009
2

Matrix; uma grande decepção.

Pros que já leram esta minha opinião ou algo similar, não se desesperem ou me mandem e-mails e comentários alertando/debochando/reclamando sobre o ocorrido. A Matriz não está sendo alterada. É que eu tenho coisas velhas e bobas que escrevi faz tempo e vez em quando eu colocarei alguma delas aqui.

Sim, eu guardo coisas que escrevi e de que me orgulhei por qualquer razão, algum dia. 

Mas para vocês não perderem o click, as coisas estão repaginadas e com menos erros de português.

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Entendam, minha crítica é quanto à série. O primeiro filme é excelente e dispensa continuação.

Mas ai decidiram fazer mais dinh..filmes.

As seqüências, como muitas coisas que vemos pelo mundo afora, tinham grandes chances de serem boas, mas não foram. E eu digo porque.

Alerto para spoilers, no caso de você não ter assistido aos filmes e pretender faze-lo algum dia.

O segundo até que é bom, o problema é que ele foi uma tentativa de expandir o universo do primeiro filme. Entre o 2 e o 3 houve um burburinho enorme entre os fãs de ficção científica, que discutiam as diversas pontas soltas e pistas do segundo filme e no que poderiam resultar. O problema é que como este, se tratava de um atiçador para o terceiro filme, estas pontas soltas que sugeriam algo grandioso eram bem sutis. Eu mesmo só fui compreender algumas depois que li comentários a respeito.

Fiquei pilhado pro terceiro e me frustrei, pois na certa os diretores foram obrigados a recuar de sua ousada tentativa de fazer de Matrix um filme mais cabeça e fizeram do 3, na melhor das hipóteses, um Dragon Ball. 

Considerando tudo Matrix 3 ainda foi mais fiel.

Considerando tudo Matrix 3 ainda foi mais fiel.

Ou, o que é perfeitamente possível, fizeram o 2 de sacanagem sem nunca pretender grandes coisas. Só pra atiçar os fãs cabeçudos.

Mas as teorias que surgiram eram bem interessantes e vale a pena relembrar aqui.
A principal girava em torno do personagem Merovíngio, que teria sido o equivalente ao Neo de outra versão da Matrix. O surgimento de um Neo (i.e.: Budha matricial) é o sinal de que a Matrix precisa ser resetada, dai o nome Reloaded. Ele também tinha uma amante, a Mônica Belluci, que numa das cenas beija o Neo e lamenta que seu Merovíngio não tenha mais a mesma paixão que ela sente nele. Isto reforça a idéia de que o pomposo francês já foi um rebelde cheio de tesão reprimido como o Neo.
O Merovíngio demonstra ter tanto domínio da Matrix quanto o Neo. No filme é dito que existiram outras 5 versões da Matrix e sobre terem sido distintas da atual, ele comenta o fato de alguns “fantasmas” destas outras versões terem persistido nas seguintes e na atual. Isto explica os vampiros, lobisomens e os irmãos fantasmas que Neo e sua turma enfrentam. A partir disto, possivelmente a versão em que o Merovíngio fora o grande rebelde, a ilusão deve ter sido de um mundo de fantasia medieval ou algo do gênero, onde tais criaturas existiam.

O nome Merovíngio é inspirado em uma dinastia que viveu na França medieval, cujos membros se diziam, e até hoje não se sabe ao certo, herdeiros diretos de Cristo. Isto remete mais uma vez à idéia de Merovíngio = salvador = messias, etc…
Tal como no primeiro filme onde o dèjá vu é explicado como sendo um momento em que a Matrix é alterada, isto diz que as visões de fantasmas e seres inexplicáveis que algumas pessoas têm, nada mais são que reflexos de outras versões da Matrix. Uma analogia com o que ocorre após apagarmos arquivos de um HD comum. O que foi apagado segue gravado no disco só que fora do alcance do sistema, ainda que possam ser recuperados com programas específicos e até mesmo, dependendo do caso, persistem ao alcance, porém ocultos.
No final do filme o Neo se depara com o arquiteto que confirma pra ele a história da necessidade de resetar a Matrix, pois aquela versão já está fadada ao fracasso dada a grande quantidade de gente que fugiu e vive em Zion trabalhando para resgatar exponenciamente mais e mais pessoas das fazendas das máquinas.

O Arquiteto coloca Neo contra a parede e lhe dá a opção de se manter super poderoso e habitar a nova versão da Matrix, com sua amada que estava prestes a morrer.
Mas Neo manda ele se fuder e resolve mostrar que é, de fato, o über rebelde matrix fucker. Opção que o Merovingio não fez.

Mega revoltado.

Mega revoltado.

A cereja no sorvete foi no finzinho, após salvar a mocinha, quando Neo derruba um grupo de máquinas fora da Matrix, como se estivesse dentro dela.
O filme termina e tudo indicava uma continuação eletrizante onde estas deduções seriam confirmadas e várias hipóteses sobre como Neo poderia ao mesmo tempo salvar Zion e a humanidade pipocaram pela internet.
A que mais vingava era que na verdade, o que todos acreditavam ser o mundo real era também parte da Matrix, por isso Neo usou seus poderes ali. E fazia todo o sentido. Máquinas extremamente avançadas não deixariam um furo de segurança grave, sabendo que mais tarde teriam de resetar a porra toda novamente. Era muito idiota.
Então tudo fazia parte da fantasia e na verdade todos estavam ainda nos seus casulos. Era uma fantasia necessária, pois por melhor que possa parecer, em qualquer existência sempre haverá os descontentes, que tentarão se rebelar e derrubar o status quo. Dai a ilusão de Zion era necessária, como um ambiente onde estes rebeldes podiam ter sua válvula de escape. No melhor exemplo “futebol é o ópio do povo”, versão rave no caso.

Isto explica o fato de Neo ser super poderoso “fora da Matrix” e levantava a grande questão filosófica que daria conteúdo ao filme: A eterna rebelião contra os dogmas da sociedade valia a pena e traria de fato uma liberdade? Ou no final das contas toda a rebelião reverte em outra versão da mesma sociedade? Será que a Matrix seria destruída ou Neo teria de se conformar como o Merovíngio a viver eternamente nela, uma vez que nada nunca muda de fato?
O título Revolutions do terceiro filme era bem sugestivo.

Como vemos, o terceiro filme já havia sido concebido, pelos fãs. Um bom filme, bem calcado no enredo dos anteriores. O trabalho dos roteiristas era, baseado nisso tudo, decidir qual seria o desfecho de fato.

O mesmo trabalho que o George “the hut” Lucas teria com as prequels de Star Wars.

O resultado foi semelhante.

Não eram pistas óbvias, principalmente para o grande público, mas eu sou da opinião que ainda assim poderiam ter feito um filme cheio de ação só que com vários níveis de entendimento.

Matrix = cebola = shrek

Matrix = cebola = shrek

Não seria estranho, pois no primeiro filme várias referências sutis foram usadas, com os disquetes dentro do livro Simulacro e Simulação do Jean Baudrillard (Recomendo a leitura. Prevê muito do que temos hoje, inclusive sugerindo a Matrix. Geralmente não sou fã destes filósofos, mas é uma exceção à regra de bla bla bla enfadonho, além de ser curtinho).

O que acontece é que neste primeiro filme a compreensão não dependia em nada de tais referências. Isto seria difícil de se fazer nos outros dois e como, pelo visto, poucos pescaram, eu me incluindo ao menos na parte da dinastia Merovíngia, os caras acharam melhor nem se dar ao trabalho de explicar.

O resultado foi bem abaixo do esperado.

É, pois é.

É, pois é.

No fim, e na melhor das hipóteses, Zion tornou-se uma analogia a Salvador. Uma grande rave/micareta onde somente meia dúzia trabalhavam de fato. Por fim, a vizinhança, exausta de aturar a barulheira, invadiu o lugar e pacificou a região.

 

Nenhuma grande perda.

Nenhuma grande perda.

Ironicamente seguimos todos vivendo uma grande ilusão onde somos conduzidos à compreensão mais rasa de tudo que nos cerca.

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