Sep
14
2009
1

O Dono do Jogo

Um pequeno conto de pouco mais de uma página que escrevi anos atrás para um concurso sobre contos com temática futebolística. Não ganhou mas ainda assim gostei do resultado.

Divirtam-se!

Mais um jogo?

Não, este é O Jogo. Pensa consigo Heitor, sentado defronte de seu armário no vestiário.

Lá fora está um caos. Já dá pra escutar o barulho da torcida, que já deve lotar o Maracanã, e mesmo aqui no vestiário é mais que um murmurinho.

Eu sei dos vários craques que estarão em campo hoje, mas hoje é meu dia. A decisão está em minhas mãos.

Heitor veste seu uniforme impecável, como um padre se preparando para a missa.

Mas nada impede sua mente de vagar pelo tumulto que o cercou nesses últimos dias precedentes ao jogo de decisão.

Diretores, patrocinadores, e até mesmo investidores ilícitos, todos querendo certificar-se de que ele fará o que eles querem.

Chega! Eu não posso adentrar o gramado, o palco mais cobiçado, num dia tão especial e sonhado por mim desde o início de minha carreira, e estragar tudo fazendo o jogo dos outros.

Ou posso? A tentação é grande.

Heitor observa seus companheiros. O jeito como se olham, e como conversam. Tentam disfarçar o nervosismo e já devem ter tomado suas decisões. Se os conhece bem, foi sem dúvida a mais fácil. A mais lucrativa.

Ele termina de amarrar a chuteira e se levanta.

Está pronto.

Beija de olhos fechados o cordão que fora de seu avô num ritual solitário e imutável que sempre fazia antes dos jogos. Lembrou-se do seu avô e, em seguida, de vários momentos bons aleatórios e assim, em um minuto, abre novamente seus olhos.

Estou calmo.

Já é hora de ir. Ele e seus companheiros sobem as escadas para o gramado na expectativa que sempre antecede uma explosão esperada.

E ela acontece. Uma confusão de gritos, vaias e cantos invade seus ouvidos. O Maracanã está lotado. Ele já está acostumado com isto e não se deixa afetar nem para o bem nem para o mal.

Os fanáticos são sempre realçados pela mídia, mas ele sabe que, no fundo, a maioria aprecia o futebol bem jogado e, mesmo que seu time perca, se o torcedor tiver visto seu time dando o máximo de si, não ficará frustrado.

A verdade é que, para Heitor, pouco importa se os torcedores gostam ou não dele, ele já deixou de se iludir com isso há anos. Afinal de contas, é um profissional. Num dia o herói; no outro o vilão. Ele próprio não se ilude com preferências pessoais quanto aos times de que gosta mais ou menos. Deixou de torcer faz tempo. Só está preocupado em fazer o que sabe, e sabe que no fim ele é um time de um homem só.

Ele é seu único torcedor apaixonado. Mesmo sua família não conseguiria demonstrar tal devoção, mas isso não importa, porque fãs fazem o ego crescer e encobrir a visão clara sem a qual ele não teria chegado aqui.

Ao soar o apito ele está perfeitamente consciente do que deve fazer. Totalmente atento ao jogo.

Este é o seu momento e aqui ninguém pode interferir. Hoje ele está realizando um sonho e quer ter o prazer de se recordar desta partida da próxima vez que beijar seu cordão.

Um sorriso se abre em seus lábios quando começa a correr. Pouco importa o resultado, esta será sua melhor partida!

O jogo é tenso, todos temem ser o protagonista de um erro marcante e poucos se arriscam.

Mas logo a bola começa a rolar sem dificuldade e enfim um belo passe, um drible e um cruzamento açucarado. O gol é inevitável.

Metade do estádio vibra de alegria.

Heitor pareceu adivinhar quando olhou para o auxiliar e o viu erguer a bandeira.

Felizmente ele esteve atento ao prever a jogada e observou o posicionamento de ambos os jogadores.

Desculpe amigo, mas a jogada valeu, pensou Heitor ao apitar e sinalizar assim apontando para o centro de campo onde a bola deveria ser reposta para que a partida fosse continuada.

Pouco importa os acordos alheios, porque hoje ele é o dono do jogo.

Fim.

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